
Uma reflexão afiada sobre como a ausência de atenção se transforma no desprezo — e sobre o lugar do escritor que vê (ou não vê) o outro.
Godard — autor do brilhante filme O Desprezo — disse, em entrevista, que nunca sentiu ser desprezado, porque apenas se despreza aquilo que se é indiferente. Essa máxima me acompanha: se nunca escrevi uma linha sobre você, veria isso com preocupação; significa que você me é indiferente — e, portanto, objeto absoluto do meu desprezo.
Escrevo: para mim, praticamente tudo pode virar assunto. E tenho uma virtude que considero sincera: sou direto. As pessoas de que gosto, mesmo aqui no Recanto, eu deixo claras para todo mundo; às vezes até as imortalizo nos meus textos, mesmo quando discordo e faço chiste. Os que não me interessam, eu evito por completo. Mas os que ficam no limiar — aqueles indiferentes — são os piores: desprezados e invisíveis.
No mundo atual, movido a espetáculo, é doloroso não ser visto. Fico perplexo com a juventude; para mim, a juventude sempre foi bela. Godard, em Acossado, por meio do personagem de Jean-Pierre Belmondo, provoca: quando questionado sobre sua relação com a juventude, responde com brusquidão que prefere os velhos. Eu também prefiro conversar com os velhos, mas contemplar a beleza dos jovens.
Contudo, não me é indiferente a burrice juvenil. Vejo jovens bem apessoados por fora e, ao abrirem a boca, uma tristeza. Preciso decifrar a linguagem deles como um primata decifrando um símbolo estranho. Se eu tivesse a aparência e a juventude deles, faria estrago — confesso com descaramento. E nisso reside também um pouco de vaidade: mesmo duas décadas mais velho, reconheço em mim uma jovialidade e uma presença que considero superiores.
Tenho também críticas estéticas e narrativas. A tese de Pobres Criaturas — de que Bella Baxter, tendo o cérebro de um bebê dentro de um corpo adulto, se tornaria uma pessoa adulta em aparência e maturidade — me parece falha. A ideia de que a neuroplasticidade humana faria dessa transferência um sucesso é instigante, mas repleta de lacunas; seria mais verossímil se o cérebro transferido fosse o de alguém próximo à morte, e não o de uma criança, preservando algum arcabouço cognitivo que sustentasse a maturidade emergente.
O filme, ainda assim, não me foi indiferente — e esse é o seu mérito. Uma obra pode ser imperfeita, inacabada, cheia de falhas, e ainda assim mobilizar, provocar, incomodar. Isso é, a meu ver, parte do valor artístico: causar reação, mesmo negativa.
Retorno ao ponto inicial: sou direto nas minhas virtudes e nas minhas rejeições. Os que me agradam são exaltados; os que não me interessam, eu repilo. E aqueles que habitam o limiar — indiferentes — são os que mais me incomodam. Existe, talvez, uma virtude em ser verdadeiro até demais: assumir gostos, preferências, desprezos. Não por orgulho vazio, mas por honestidade brutal.
Quanto às mulheres mais jovens: não me envolvo por questão legal — e nem sempre por (falta de) vontade. Ainda assim, ouso pensar que teria algo a ensinar-lhes: não só fisicamente (embora admita um viés provador), mas também intelectualmente. O abismo entre gerações seria grande demais para que eu fosse simplesmente desprezado.