
DAVELEDAVE.RECANTODASLETRAS.COM.BR
O grande problema da escritora anônima reside principalmente no seu anonimato. Se ela existe anonimamente, então não existe na vida real.
Não se pode fazer nada com alguém anônimo, obviamente: não é possível beijá-la, abraçá-la, muito menos amar alguém que não existe.
Se eu jurasse amor por alguém que não existe, anônimo, que não está presente, o maluco seria eu, e não ela.
Eu prefiro amar uma beleza real, ainda que modesta, existente, porque o rosto anônimo é difícil de imaginar. E se eu deixar à encargo da minha imaginação, acabarei preenchendo-o com meu próprio rosto.
Ao fim deste texto, me dou conta do nome do meio do personagem da literatura que me é mais caro: Hans Giovanni Castorp, de Thomas Mann.
Ele amava pelo menos alguém que conhecia, ainda que não fosse plenamente correspondido. Eu prefiro assim: como ele, ser preterido por outra pessoa do que amar alguém inexistente. Porque isso é real; o mundo das ideias de Sócrates e Platão nada tem a ver.
Hoje escutei algo do meu cabeleireiro que me deixou aterrorizado. Ele disse que, no paraíso, será só louvor e adoração a Deus; que quem não gostar de louvar não tem o que fazer no céu, e concluiu que por isso ele gosta de louvar.
Ora, não me surpreende que o diabo tenha se revoltado com tal proposta. Que coisa chata, anodina! Além de viver para sempre, querem me obrigar a cantar para alguém que, até onde sei, também é anônimo?
Não me peçam para amar o inexistente. Eu prefiro amar o universo, o todo.
Eu só aceitaria porque não gosto de calor, e se metade do que Dante escreveu estiver correto, no inferno não parece ter um clima lá muito aprazível.