
Na paródia de Pobres Criaturas, o mulherengo se torna vítima do próprio veneno. O que ele mais temeu — ele, que tirou tantas das mãos dos outros — agora se converteu naquilo que mais temia: um amante grudento. E isso é tão contrário ao amor: o tédio de possuir, a frustração de ter… nenhum amor sobrevive à convivência.
Então ele transforma o sentimento em perigo disfarçado de cuidado: o ciúme.
Às vezes, nem precisamos ter para sentir ciúmes… Veja o amigo da minha querida com nome de seriado proibido dos anos 2000, de sobrenome Costa e Silva. Como competir com alguém que tem nome de general golpista? Há algo de impositivo e pedante nesse “e” entre sobrenomes, como se dissesse: “Sou aristocrata com direito a argumento coordenativo aditivo”. Se fosse Costa da Silva, poderia ser apenas um entre tantos. Mas Costa e Silva? Um barão em pessoa, com DNA de monarquia e povo em fusão exata…
Eu já imaginei um rival de pele alva, olhos claros e cabelo encaracolado, que por morar no Nordeste usa camisa florida e, como por hábito, tem que cuidar do corpo. Ombros largos, musculatura definida… E se isso não fosse tudo, o maldito (com todo respeito) ainda escreve bem e bonito. E, para além das minhas capacidades, sofre dessa doença genética dos poetas: gerar beleza através da linguagem. Algo que me falta totalmente… O que minha retórica fria e pernosticamente argumentativa poderia contra sua pena poética? Eu não teria a menor chance. Faria parecer meus escritos como a de um manual de instruções de liquidificador, diante da sua verve artística e poética,.. Zero chances.
E foi ela quem o indicou ao Recanto… Eu, tão acostumado com meu conceito de amizade erótica, não poderia aparecer sem que fosse um sinal inegável de que dormem juntos. Como eu não posso matar a ambos — ainda bem — resta imaginar, ou simplesmente, e mais aceitável, sentir ciúmes.
É claro que eu não faria isso… A morte é vulgaridade, principalmente para alguém que escreve. Ou você escreve, ou é um matador… os dois são inconciliáveis.
Então resta a comédia: observar o sujeito com sua camisa florida, seus ombros largos, sua escrita impecável e pensar: “Se eu fosse poeta, seria deus. Mas sou apenas um espectador com ciúmes”. A vida nos dá ciúmes para nos lembrar que somos todos campeões do ridículo — e que, se a tragédia falha, a comédia dá conta.
É divertido perceber o quanto seu coração se irrita, se desespera e se debate… enquanto você tenta manter a pose de intelectual ou amigo erótico sofisticado. É uma ópera bufa sem orquestra, com olhares tortos, pensamentos e gargalhadas contidas, de canto de boca.
Porque o ciúme não é apenas perigo; é o esporte em que todos nós somos absurdamente competentes, e rir de si mesmo é o único amor que sobrevive intacto.