O INSTINTO DE MORTE VENCERÁ O HOMEM

A segunda lei da termodinâmica dá conta do seguinte:
“Todo sistema isolado caminha espontaneamente em direção à desordem, ao equilíbrio térmico e à perda de diferenciação — o estado de máxima entropia.”
Em outras palavras, a natureza não busca ordem — ela apenas a tolera temporariamente, enquanto houver energia disponível para sustentá-la.
Quando essa energia se esgota, tudo se dissolve: calor, forma, estrutura, até mesmo a consciência.
É a lei do esgotamento inevitável.
Ou, como disse Schrödinger — o mesmo do famoso experimento do gato vivo e morto ao mesmo tempo —:
“A vida se mantém viva lutando contra a entropia.”
Mas o que significa entropia?
Entropia é o desajuste, o desalinhamento da matéria em direção ao seu estado inicial. Podemos associá-la à morte, ao Tânatos da mitologia grega, ao instinto de morte freudiano.
A tendência de todo sistema é a máxima entropia — ou seja, a sua própria extinção.
Mas, se há entropia, quem organizou o sistema?
Deus parece a resposta mais fácil. Mas também a mais vulgar — porque, afinal, de onde veio Deus?
Para explicar melhor, recorramos à literatura de Douglas Adams, em O Guia do Mochileiro das Galáxias.
Nela, há uma nave movida por um motor de improbabilidade infinita: ao calcular todas as probabilidades possíveis, ela pode viajar longas distâncias instantaneamente.
Nesse sentido, o universo, sua homeostase e sua ordem lógica são apenas uma improbabilidade estatística.
Imagine jogar uma moeda cem vezes. A probabilidade de cair cara e coroa alternadamente tende a 50%. Mas, ainda que seja possível sair cem vezes “cara” seguidas, é extremamente improvável.
A natureza, em sua vastidão, apenas jogou por tempo o suficiente para que o improvável acontecesse.
Se a quantidade de matéria é finita, e o tempo (assim como o universo) é infinito, então todas as formas possíveis de organização da matéria inevitavelmente acontecerão.
E foi assim que surgiu o Big Bang.
Antes, só havia energia em movimento aleatório. Até que essa aleatoriedade produziu algo compreensível — uma improbabilidade estatística que gerou a vida, o universo e tudo mais.
Deus, portanto, pode ser entendido como a energia primordial, mas jamais o deus de barba branca das religiões.
Recebi certa vez um comentário curioso: “O Universo poderia abrigar todos os teus escritos.”
Isso faz sentido. A inteligência do meu universo — isto é, minha consciência — faz parte do Todo, desse grande cérebro de força condensada que se espalha e se reconhece.
Talvez a Terra também tenha sido organizada por essa inteligência.
Como diz Douglas Adams, era apenas um computador criado por seres pandimensionais — os ratos — para calcular a resposta definitiva sobre a vida, o universo e tudo mais.
Mas, segundo a história, o planeta foi destruído minutos antes de concluir o cálculo, por estar no caminho de uma via intergaláctica.
De todo modo, a resposta já estava pronta — e era simples:
42.
Não é difícil constatar que o corpo caminha para a entropia da morte.
A única certeza é a morte. A vida, por outro lado, não é garantida.
Quantos já não nasceram mortos? E quantos seguem mortos mesmo vivendo?
Nietzsche veria em Sócrates um homem com um problema contra a vida — um descontente, sintoma de uma filosofia que nega o mundo real em favor do mundo das aparências.
Mas a vida sobrevive. A própria guerra demonstra isso: contraditoriamente, ela expressa a vontade de potência se expandindo e enfrentando resistências.
Mesmo na ferida, o corpo produz as condições para se curar.
Alguns organismos, porém, são patologicamente doentes — como Sócrates e tantos crentes — que, pela incapacidade de se curarem, adquirem uma doença autoimune contra a própria vida.
Criam anticorpos contra a realidade, negando-a em troca da pregação da morte — tudo aquilo que é contrário à vida.
Refugiam-se em ideias e mundos que não podem ser comprovados: Shangri-lá, Nirvana, Paraíso, Socialismo...
Tudo sintomas do instinto de morte, provas de que todo sistema caminha inevitavelmente para sua máxima entropia.