
Afinal, o que fazem os intelectuais?
Como vivem? O que fazem? O que comem? Como copulam? Se é que copulam.
Se o sindicato dos filósofos brasileiros descobrisse que eu passo mais horas na academia do que estudando, eles certamente rasgariam minha carteirinha de intelectual — isto é, se ela existisse.
Eu me refiro a mim mesmo como um intelectual por pura falta de palavra melhor, uma vez que ele é definido conceitualmente como alguém que se dedica a atividades intelectivas.
E quem se enquadraria mais nesse termo do que alguém como eu — que o faz sem esperar nada em troca?
Mesmo a atividade física que pratico não é em prol de benefícios estéticos explícitos, mas de algo mais profundo: a contribuição que o alto consumo de energia e o gasto corporal oferecem à minha produção criativa.
Enquanto caminho, meu cérebro faz download de novas ideias, graças ao estímulo que o corpo recebe do ambiente. O meio me oferece matéria-prima para o pensamento e, assim, alimento não só o corpo, mas também o espírito — com aulas, estudos, conteúdo.
Mas, é claro, essa distinção entre corpo e alma é absurda.
O que há, afinal, é apenas peristaltismo, sinapses, reações químicas e físicas que resultam no pensamento — no pensamento intelectual.
Talvez uma palavra mais apropriada para mim não seja “intelectual”, mas “roteirista”.
Essa figura que não é protagonista, mas sem a qual não haveria histórias para contar.
Ele é quem consagra os filmes, as grandes narrativas, até mesmo os autores.
Quem escreve é um roteirista — e, ao viver do modo que vivo, e ao escrever sobre isso, acabo escrevendo o roteiro da minha própria vida.
Às vezes de forma criativa, às vezes improvisada, às vezes planejada — mas, sem dúvida alguma, sempre de modo autêntico e original.
Nesse ponto, não pode haver dúvidas.