× Capa Textos Áudios E-books Fotos Perfil Livro de Visitas Contato Links
DAVE LE DAVE
SIM, ELE MESMO
Textos


O QUE É “ARTE” ?

 



 

DAVELEDAVE.RECANTODASLETRAS.COM.BR



A APORIA DA ARTE

A pergunta para essa resposta é uma aporia, porque é um conceito escorregadio, que muda conforme a sociedade, a época, as formas que constituem uma relação de poder — pra falar como Foucault — ou Pierre Bordieu — em campo social.

 


 

A INDIFERENÇA DA ARTE

Mas o que é unânime é que a arte e o artístico não costumam levar em conta os pobres, os mais humildes, em todas as definições.

 

Uma, porque eles não têm capital para usufruir da arte; e a condição material de sua pobreza ocasiona a pobreza do seu espírito.

 

Agora, mais pobre que o pobre — que foi privado das condições materiais do espírito porque precisa fazer sobreviver o próprio corpo — é o rico, que, tendo todas as benesses, vive uma vida espiritualmente mais pobre do que qualquer mendigo.

 

Não sei se Michel Alphoroso abordou isso no seu livro sobre super-ricos, mas é uma provocação válida.

 


 

A NOBREZA GREGA E APOLÍNEA

Veja: a arte é envolta, desde a Grécia, por um espírito de nobreza.

Acreditava-se que ela era privilégio de quem tem a parte superior do corpo bem dotada — ou seja, quem pensa: os filósofos.

 

Ela estava ligada às proporções harmônicas da beleza, representadas pelo cosmos e pela ideia de beleza como a carruagem de Fedro — apresentada por Platão — e a divindade de Apolo, símbolo de harmonia.

 

Mas justamente Nietzsche veria que essa concepção apolínea é uma via única da beleza — já da época da decadência.

 

A verdadeira arte dos gregos — de Homero, Ésquilo, Hesíodo e Aristófanes — representada pela tragédia e pela comédia, era a junção entre dois elementos: o apolíneo e o dionisíaco.

E a síntese desses dois geraria o “grande estilo”.

 


 

A MODERNIDADE E A ARTE SUBJETIVA

No século XVIII, com Baumgarten — filósofo alemão anterior a Nietzsche — surgiria a noção de que a arte é aquilo que agrada aos sentidos, uma subjetividade muito alinhada com as teorias do eu de Descartes, de Rousseau, do Iluminismo e da Antropocentrismo.

 

A arte passou então a ser coisa de especialistas — de quem tem os sentidos apurados para apreciá-la e, mais ainda, para executá-la: os artistas.

Mais uma vez, o povo é escanteado.

 


 

A PÓS-MODERNIDADE E O RETORNO DO COTIDIANO

É por isso que, na pós-modernidade, com o rompimento das grandes narrativas e o desencantamento do mundo, uma lata de sopa Campbell de Andy Warhol pode ser arte.

 

Uma pintura, um piche de Basquiat, um stencil de Banksy, um grafite — todos aproximam a arte das pessoas normais, dos pobres, dos que vivem fora dos museus.

 

Agora, a arte é um objeto para além da beleza: é a expressão da vontade de potência do seu idealizador.

Ela pode denunciar crimes políticos, a pobreza, ou simplesmente mostrar alguém que executa com maestria uma tarefa:

um professor, um carpinteiro, até um gari — ora, se ele faz de sua tarefa a expressão da sua potencialidade, esse homem é um artista.

 


 

A ARTE COMO CHAMA SINGULAR

É claro que isso desagrada à visão burguesa e capitalista de “arte pela arte”.

 

Eu mesmo acredito que, quando a arte se presta à politização, ela perde seu valor como arte — mas isso ocorre porque as relações de poder da política roubam a potência do artista.

 

A verdadeira arte é a expressão singular do artista em sua totalidade,

como uma chama que incendeia sem pedir licença.

ESCRITOR DAVE LE DAVE II (OFICIAL)
Enviado por ESCRITOR DAVE LE DAVE II (OFICIAL) em 20/10/2025
Alterado em 20/10/2025
Comentários