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A pergunta para essa resposta é uma aporia, porque é um conceito escorregadio, que muda conforme a sociedade, a época, as formas que constituem uma relação de poder — pra falar como Foucault — ou Pierre Bordieu — em campo social.
Mas o que é unânime é que a arte e o artístico não costumam levar em conta os pobres, os mais humildes, em todas as definições.
Uma, porque eles não têm capital para usufruir da arte; e a condição material de sua pobreza ocasiona a pobreza do seu espírito.
Agora, mais pobre que o pobre — que foi privado das condições materiais do espírito porque precisa fazer sobreviver o próprio corpo — é o rico, que, tendo todas as benesses, vive uma vida espiritualmente mais pobre do que qualquer mendigo.
Não sei se Michel Alphoroso abordou isso no seu livro sobre super-ricos, mas é uma provocação válida.
Veja: a arte é envolta, desde a Grécia, por um espírito de nobreza.
Acreditava-se que ela era privilégio de quem tem a parte superior do corpo bem dotada — ou seja, quem pensa: os filósofos.
Ela estava ligada às proporções harmônicas da beleza, representadas pelo cosmos e pela ideia de beleza como a carruagem de Fedro — apresentada por Platão — e a divindade de Apolo, símbolo de harmonia.
Mas justamente Nietzsche veria que essa concepção apolínea é uma via única da beleza — já da época da decadência.
A verdadeira arte dos gregos — de Homero, Ésquilo, Hesíodo e Aristófanes — representada pela tragédia e pela comédia, era a junção entre dois elementos: o apolíneo e o dionisíaco.
E a síntese desses dois geraria o “grande estilo”.
No século XVIII, com Baumgarten — filósofo alemão anterior a Nietzsche — surgiria a noção de que a arte é aquilo que agrada aos sentidos, uma subjetividade muito alinhada com as teorias do eu de Descartes, de Rousseau, do Iluminismo e da Antropocentrismo.
A arte passou então a ser coisa de especialistas — de quem tem os sentidos apurados para apreciá-la e, mais ainda, para executá-la: os artistas.
Mais uma vez, o povo é escanteado.
É por isso que, na pós-modernidade, com o rompimento das grandes narrativas e o desencantamento do mundo, uma lata de sopa Campbell de Andy Warhol pode ser arte.
Uma pintura, um piche de Basquiat, um stencil de Banksy, um grafite — todos aproximam a arte das pessoas normais, dos pobres, dos que vivem fora dos museus.
Agora, a arte é um objeto para além da beleza: é a expressão da vontade de potência do seu idealizador.
Ela pode denunciar crimes políticos, a pobreza, ou simplesmente mostrar alguém que executa com maestria uma tarefa:
um professor, um carpinteiro, até um gari — ora, se ele faz de sua tarefa a expressão da sua potencialidade, esse homem é um artista.
É claro que isso desagrada à visão burguesa e capitalista de “arte pela arte”.
Eu mesmo acredito que, quando a arte se presta à politização, ela perde seu valor como arte — mas isso ocorre porque as relações de poder da política roubam a potência do artista.
A verdadeira arte é a expressão singular do artista em sua totalidade,
como uma chama que incendeia sem pedir licença.