
As matérias exatas causam tanto desconforto porque nelas não há como se autoenganar. O resultado errado expõe sua fragilidade, sua burrice, sua incapacidade. Por isso as detestamos e nos refugiamos no mundo das ideias e das palavras, sem nos dar conta de que a matemática é, antes de tudo, uma linguagem.
Mas as pessoas se enganam também em questões humanas, demasiado humanas. Ninguém gosta de se sentir burro; por isso evitamos conteúdos que possam trazer à tona nossa burrice, rejeitando-os. A inteligência é uma capacidade muito invejada. Alguns ressentem aqueles que a possuem e buscam inspiração para obtê-la; outros se refugiam, fugindo dela. Eu posso dizer que a inteligência me causa admiração e não inveja. Mas eu também sinto inveja.
Minha inveja provém não da percepção de falta de talento em mim, mas de causas materiais que favorecem o desabrochar do meu talento.
Porém, também tenho lucidez: meu talento não é um dom, mas sim o resultado de ter tido as causas materiais necessárias para realizá-lo, como tempo, equipamentos, educação, entre outros.
Como soube Buarque de Holanda, o brasileiro valoriza apenas o culto à pessoa, à força de vontade, acreditando que tudo pode ser superado. Ronaldo superou suas lesões no joelho, convulsão, para se tornar melhor do mundo e conquistar a Copa, até mesmo lutando contra a obesidade. Vemos Virgínia magra depois de ter filhos e reconhecemos seus méritos. O mesmo ocorre com alguém que passou em Medicina ou Direito na USP. Acreditamos que esses resultados decorrem exclusivamente do indivíduo, e não de uma estrutura material objetiva.
Por exemplo, Ronaldo contou com aparato técnico e médico que realizaram sua cirurgia, fisioterapia de excelência, dieta planejada; ele só precisou agir, fazer o mínimo para alcançar seus resultados. Sem essa técnica, sucumbiria como muitos jogadores de várzea.
E Virgínia só consegue ser magra porque há pessoas que preparam seus alimentos, pesam tudo, organizam um cardápio específico, um personal trainer que traz e empresta motivação — já que ela está pagando por isso. Da mesma forma, quem passa em vestibulares de Medicina estudou em cursinhos ou escolas de qualidade, teve boa alimentação, condições adequadas; o estudante só precisou executar e seguir o fluxo. Concordamos que essa narrativa enaltece menos o indivíduo e mais as condições materiais, mas isso não a torna menos verdadeira.
Reconheço que meus resultados de performance física e intelectual vêm com a ajuda da família, que me apoia e organiza minha rotina, desde a preparação de alimentos até suporte diário. Mas quando olho para o que me falta, a inveja não é da capacidade ou do talento. Às vezes penso: com um tênis melhor, eu correria mais, teria menos risco de lesões; com mais recursos financeiros, meus looks seriam ainda mais elegantes.
Com estrutura, otimizamos nossos resultados. Mas meu papel é ler a realidade e adaptá-la às minhas condições. Então, em vez de vestir um tênis de mil reais, visto o que posso; em vez de alfaiataria de luxo, compro na Shopee; em vez de marcas caras, uso alternativas. Se tivesse acesso aos produtos e acompanhamento dermatológico, meu cabelo, minha pele, minha barba e meu pescoço poderiam estar ainda melhores — mais cuidados, menos sofridos, menos marcados pela foliculite. Como dizem, a condição social se revela pelo cuidado com os óculos, a pele e as unhas. A distinção vem pelos capitais simbólicos e culturais que o capital financeiro pode comprar.
Mas nem por isso, pela falta de capital, deixo de imprimir minha marca em tudo que possuo. Em assinar tudo que faço, inclusive este texto. E isso é sinal de inteligência.