
Há uma árvore genealógica dos filósofos e do pensamento. Nietzsche — que é dito inaugurar o pensamento da pós-modernidade, com sua crítica ao período passado, aos valores ascéticos, à modernidade e a tudo que veio antes — chamava Espinosa de “irmão”.
Espinosa foi o primeiro a basear sua ética — no sentido de que ética é a vida bem vivida, a vida boa — nos afetos que o mundo proporciona. E tudo, para ele, é regido pelo princípio da necessidade, por causas materiais. Ou seja, tudo é exatamente como pode ser: não existe livre-arbítrio nem escolhas, apenas afetos que ora geram sentimentos agradáveis, ora desagradáveis, conforme nossa energia oscila.
Mas Espinosa só pôde pensar isso por causa dos pré-socráticos — como Heráclito, que dizia que a única constante é a mudança, e Demócrito, talvez o primeiro pensador materialista a fundar a teoria atomista, dos átomos, da matéria, dos agenciamentos atômicos.
Marx, dezenove séculos depois, inauguraria o materialismo histórico, tentando explicar a sociedade pelas relações de produção do sistema econômico. E sua tese de doutorado, curiosamente, foi sobre a obra de Demócrito.
Portanto, há que se falar numa tradição de pensadores materialistas, da qual, depois de Nietzsche, ainda surgiram Deleuze, Foucault, Derrida, Freud, Lacan, Weber — toda uma sociologia materialista que tem por finalidade explicar a realidade pelas relações materiais, ainda que, para isso, se valham de ideias abstratas, como os “tipos ideais” de Weber.
Espinosa percebeu que o mundo não leva em conta nossos sentimentos, nem mesmo os devidos ao amor.
Ele era português e se apaixonou pela filha de um fidalgo que falava a língua lusitana, chamada Maria Clara — que preferiu casar-se com outro.
Que nome lindo, Maria Clara, não é? E, de algum modo, ela não enxergou beleza ou fatores materiais para se apaixonar por Espinosa. O afeto negativo que essa rejeição gerou no filósofo — aquilo que ele chamaria de tristeza — fundou toda uma tradição de pensamento.
Ninguém sabe o nome do homem com quem Maria Clara se casou. Mas todos sabemos quem foi Espinosa. E só sabemos hoje de Maria Clara por causa do sucesso de Espinosa.
Veja: em vida, o próprio Espinosa não conheceu o sucesso que sua obra teria. Como disse Nietzsche, a sociedade sempre foi idiota — e há sujeitos que já nascem póstumos. Espinosa sabia disso. Nietzsche também.
De certa forma, a ética espinosiana dos afetos denuncia o que se passa em Shakespeare com Romeu.
Ele estava apaixonado por Rosalina — e, logo em seguida, sucumbiu tragicamente de amor por Julieta Capuleto, que carregava o sobrenome do inimigo mortal de sua família, os Montecchio.
Shakespeare, na verdade, faz uma crítica ao sentimento do amor: porque ele é transitório, ilusório — e toda a história trágica não teria ocorrido se eles tivessem seguido a tradição.
Há algo de mágico no amor. Algo de místico.
Esse mesmo sentimento fez com que Helena deixasse seis filhos e seu lugar ao lado de Menelau, rei de Esparta, para fugir com Páris, príncipe troiano — o que causou uma das guerras mais sangrentas da história da literatura.
Mas, ao fim dos dez anos, ela se deu conta do desfecho trágico de sua decisão — que, de certa forma, foi fruto do poder mágico de sedução que Afrodite concedera a Páris.
Talvez teria sido melhor para todos, como seria também para Romeu, se tivessem seguido as tradições. Não é mesmo?
Porém, se não fosse o amor — esse afeto arrebatador — não haveria grandes histórias para contar.
Sem ele, sem essas oscilações limítrofes entre prazer e dor, restaria apenas a monotonia do cotidiano.
É por isso que o amor vivido, mesmo que efêmero, vira epopeia.
E o amor não vivido vira rotina.
Quem vive de forma morna é apenas “alguém normal”. Só mais um.
Não há muitos livros dedicados a pessoas normais.
As grandes histórias — e as grandes tragédias — são movidas por paixões espinosianas: modos pelos quais o mundo afeta nosso corpo, ora gerando mais potência, ora diminuindo-a.
E fato é: são essas oscilações que criam as grandes histórias.
Sem elas, não haveria nada a ser contado.