
_Ai eu amo Tarantino…
_Que filme dele você assistiu?
_Bastardos Inglórios.
_E o Pulp Fiction?
_Eu acho que é o filme mais genial da história do cinema. Mas eu assisti dublado porque os diálogos passavam muito rápido. Olha essa camiseta que eu comprei…
(Parece que não, mas esse diálogo acima foi inventado por mim…)
As pessoas acham que o cinema surgiu a partir de Pulp Fiction, e que a ideia do roteiro não linear surgiu com Tarantino. Nunca ouviram falar no efeito Rashomon, e até A Véu de Noiva do dramaturgo Nelson Rodrigues, ou em Short Cuts de Robert Altman.
Porém, sem dúvida, o filme é genial. É um filme rápido, mas se você for assistir, não há ação contínua. A rapidez está nos diálogos: diálogos longos, inteligentes, tão diferentes do que o público está acostumado. Ganhou com justiça a Palma de Ouro em Cannes. E na reexibição de 30 anos do filme, Tarantino obrigou que ele fosse exibido no formato original em película. O digital, para o diretor ítalo-americano, acaba com o cinema.
Convém admitir: a obra-prima que ele fez foi só essa mesmo. Acho Bastardos Inglórios muito superestimado, para não dizer chato. Kill Bill tem seu charme, mas é cinema de entretenimento, longe de artístico.
Também não dá para colocá-lo na categoria de quem o copia, como Ridley Scott ou Guy Ritchie. Pelo menos Tarantino é o original.
Comparar Tarantino com Paul Thomas Anderson é como comparar Blur com Oasis. Oasis podem até ter mais repercussão, até música melhor, mas sempre fazem o mesmo som. Paul Thomas Anderson é mais eclético, mais artístico, mais completo, mais plural.
É totalmente compatível ambos, porque nenhum dos dois teve uma formação convencional em cinema e ambos são frutos das locadoras e da cinefilia — a melhor escola para quem deseja ser diretor de fato. Não existe um grande diretor que não seja um grande cinéfilo. Veja Godard, Truffaut, que eram críticos antes de serem os gênios por trás da Nouvelle Vague; o mesmo vale para Agnès Varda, Claude Chabrol, Rivette e tantos outros. Até Olivier Assayas, mais contemporaneamente.
Porém, um Boogie Nights de Paul não perde em nada para Pulp Fiction, com seu lindo plano-sequência de abertura. E Magnólia, que também foi muito inspirado em Short Cuts de Robert Altman, divide opiniões. Eu sou dos que gostam. Mas, sinceramente, Tarantino não tem um filme sério e pungente como Sangue Negro, ou uma comédia romântica como Licorice Pizza. Ou A Trama Fantasma, em que ele mostra toda a elegância ao retratar o relacionamento frio de um estilista, do mundo da moda, com sua esposa, ao mesmo tempo musa e cuidadora dele… E há O Vício Frenético, que eu não gosto muito. E agora, esse novo filme de guerra com DiCaprio que eu tenho que assistir.
Agora Tarantino não… sempre a mesma fórmula, sempre sangue estilizado, que já saturou. Parece que ele está fazendo o mesmo filme de 11 horas.
Porém, não dá para negar que ambos escrevem diálogos inteligentíssimos. Mas os de Tarantino talvez tenham como inspiração a brisa da maconha. Os de Paul são de quem realmente leu, é leitor autodidata e refletiu isso nos diálogos dos espetaculares escritos por ele.
Não tenho dúvida de que Paul Thomas Anderson é um homem mais culto que Tarantino, e tecnicamente melhor como diretor. Mas Tarantino talvez seja mais cinéfilo, vê de tudo: filmes B, independentes, alta cultura. Não à toa que o nome da produtora dele chama-se Band à Part, nome de filme, digamos, mais acessório e palatável de Godard.
Com certeza, os que vestem a camiseta Written and Directed by Tarantino e acham que ele inventou o cinema não conhecem esse faro, não sabem quem é Godard e nunca viram esse filme. No máximo, conhecem a música Eduardo e Mônica…
Ambos são cineastas que filmam relativamente pouco, comparando com um Woody Allen, que faz quase um filme por ano.
Mas compare a carreira de Tarantino com a de Kubrick, que também realizou pouquíssimos filmes, mas todos de qualidade: de comédias sensacionais a dramas eróticos, filmes de guerra, adaptações, ficção científica, dramas sobre o cotidiano, com roteiros igualmente fragmentados — como O Grande Golpe de 1954, que influencia Cães de Aluguel, primeiro longa de Tarantino.
Se Tarantino fosse gênio, ele seria Paul. E se os dois fossem o maior cineasta americano, eles se chamariam Scorsese, Coppola… e se juntássemos todos eles e misturássemos no liquidificador com tudo que há de bom, talvez saísse Kubrick.