
Quando digo que entendo e gosto de um autor, não me refiro a ser um diletante.
Se afirmo que Nietzsche é um dos autores da minha predileção, não significa que sou um entusiasta de ocasião — desses que viram um vídeo, leem Assim Falou Zaratustra pela metade e já se dizem especialistas.
Nada me irrita mais do que a figura do poser: o sujeito que veste camiseta do “Written and Directed by Tarantino”, mas não entende porra nenhuma de cinema; aquele que ouve rock clássico, progressivo, metal ou punk, com sua camiseta encardida dos Guns N’ Roses ou dos Doors, mas não compreende porra nenhuma de música.
Não é essa relação leviana que tenho com minhas paixões.
Quando digo que sou “especialista” — entre aspas, por ironia — em Nietzsche, Shakespeare, Kafka, Dostoievski, Clarice ou Joyce, é porque li tudo o que havia para ler.
Até os fragmentos póstumos, os comentadores, as horas e mais horas de palestras e aulas, inclusive para validar com o que não concordo.
Clarice, por exemplo — li todas as crônicas de jornal, cada conto, cada vírgula.
Conheço o estilo dela o suficiente para saber quando é impossível que tenha dito alguma dessas frases apócrifas de Instagram que lhe atribuem.
Esses são os posers que detestamos.
Pelas entrevistas, não tenho dúvidas: Clarice e eu não nos daríamos bem.
Talvez houvesse respeito mútuo, mas afinidade, nenhuma.
Clarice, coitada, quase morreu num incêndio — esqueceu o cigarro aceso, ficou com boa parte do corpo queimada e, ainda assim, não parou de escrever.
Escrevia com o que restava da mão.
É essa chama interna — e não as que consumiram seu corpo — que move quem escreve.
Talvez, se ela entrasse no meu site, ficasse intrigada.
Gostasse de um texto, se irritasse com outro, talvez contrariada, talvez curiosa.
Não comentaria nada — mas escreveria a respeito.
E, certamente, não seria com esses comentários idiotas de redes sociais, cheios de emoticons e nada de pensamento.
A modernidade, como bem diagnosticou José Ortega y Gasset em A Rebelião das Massas (La rebelión de las masas, 1930), é o triunfo do homem-massa — não o homem do povo, mas o homem comum que acredita bastar-se a si mesmo, satisfeito com sua mediocridade e incapaz de reconhecer a complexidade do mundo.
Ortega descreve esse homem como aquele que vive cercado de facilidades e, por isso, perde o senso de limite, de responsabilidade e de profundidade.
É o sujeito que tem opinião sobre tudo, mas reflexão sobre nada; que transforma ignorância em convicção e reduz o pensamento a um eco de slogans.
Incapaz de pensar sozinho, busca pastores para guiá-lo — coaches, líderes religiosos, influenciadores e falsos profetas que oferecem segurança em troca de obediência.
Afinal, pensar dá trabalho, e o homem-massa não suporta o esforço intelectual.
Ele prefere ser conduzido.
É o mesmo espírito que se vê nas massas contemporâneas:
a ânsia por explicações simples, o ódio à complexidade, a recusa do ambíguo.
Tudo precisa ser rótulo, bandeira, moral instantânea.
“Deus, pátria, família” — as três palavras que bastam para que não se precise pensar mais.
Assim, questões históricas de desigualdade são vulgarmente resumidas a “pauta woke” — uma forma de ridicularizar aquilo que não compreende.
A criminalidade, para ele, não é reflexo da desigualdade estrutural, mas simples falta de cadeia ou excesso de “vagabundos”.
Direitos humanos? Abstração demais.
Ele prefere “humanos direitos” — mais fácil de entender, menos exigente de reflexão.
A pluralidade é reduzida a maniqueísmos: certo e errado, amor e ódio, bem e mal, masculino e feminino, “menino veste azul e menina veste rosa”.
Uma simplificação grotesca da realidade — onde Deus explica tudo, sem precisar pensar.
Perfeito.
Por isso é tão difícil dialogar com os evangélicos fundamentalistas: não possuem as ferramentas intelectuais para compreender a complexidade do mundo.
Seus poetas são pastores e líderes da extrema-direita — Bolsonaro, Michelle, Malafaia.
Esses são os posers de hoje.
E se Clarice vivesse, estaria desgostada.
Escreveria um livro cheio de símbolos e ironias para criticar essa misoginia e ignorância do homem-massa moderno.