
Sabemos que Colombo descobriu a América, Cabral o Brasil.
Mas a figura famigerada do escritor... quem descobriu?
Quem teve a ideia de, pela primeira vez, pegar as histórias que eram contadas à beira da fogueira e passá-las para o papel?
E mais ainda: quem foi o gênio petulante que decidiu, pela primeira vez, criar as suas próprias histórias — não para serem contadas ao redor do fogo, mas para serem lidas?
E quem resolveu, então, assinar a sua obra pela primeira vez, para que todos dissessem:
“Essa aqui é minha. Esse é meu estilo. Eu sou o escritor. Eu sou o autor.”
Uma coisa é certa: a escrita existe porque a realidade não basta.
O escritor é um mentiroso que usa a realidade, desvirtua-a para torná-la mais agradável, mais palatável, mais em harmonia com os nossos sonhos.
Se a vida bastasse — se a vida de vocês fosse o bastante — vocês não precisariam me ler.
Eu não precisaria escrever. Eu não seria necessário.
Veja, vou dar um exemplo.
Eu posso dizer que senti vontade, através da escrita, de abraçar o texto de uma autora, imaginando que ela era ela — sentindo o cheiro do seu cabelo, o toque do seu corpo — quando, na verdade, o mais provável é que o autor simplesmente tenha se masturbado enquanto via a foto dela.
Bom... não que isso tenha acontecido de verdade.
É só um exemplo, uma hipótese.
Porém, a escrita torna tudo mais poético, mais lírico, etc., etc.
Falam em homenagem... uma homenagem onanista.
Mas há também a ménage à trois: eu, ela e a imaginação.
Quando escrevo um texto dedicado exclusivamente a ela, mesmo deturpando a realidade, aí sim é uma homenagem — um orgasmo explícito literário.
E se ela leu, quem sabe... compartilhado, ao mesmo tempo.