
Se o Mengele, médico do nazismo, ou os cientistas ligados às teses de supremacia através de raça, tivessem colocado suas mãos nojentas em um motoboy, isso resultaria em conclusões trágicas para a humanidade.
Através de testes robustos de incapacidade cognitiva — os mesmos que eles usavam para justificar horrores — eles teriam descoberto uma espécie inteira devotada ao barulho, ao caos e à autoafirmação ensurdecedora.
Esses seres, dotados de uma vontade de potência sem metafísica, passam o dia fazendo barulho de tiro com escapamento, como idiotas em busca de atenção.
Quebram retrovisores, atravessam faixas de pedestres como se fossem corredores privados, tomam posse de calçadas, vielas e até pontes de transeuntes — crentes de que a cidade lhes pertence por direito divino.
Se naquela época já houvesse moto e serviço de entrega, talvez os racistas tivessem finalmente uma prova empírica de sua loucura: o iFood de cavalo que confirmaria, de modo grotesco, a tese da degeneração.
Nossa sorte é que a moto ainda não havia sido inventada.
Eu, que ando horas diariamente, testemunho isso com a regularidade de um penitente.
Certa feita, os donos de carros — outra espécie digna de laboratório — estacionaram sobre a calçada. Fui obrigado a andar rente à rua. Nesse instante, um motoboy, com seu QI inepto, passou por mim gritando:
“Anda pela calçada!”
Oi, motoboy. Estúpido. Pândego.
Como eu vou andar na calçada se ela está ocupada por um carro?
Você quer que eu o escale?
Há outro, ainda mais nobre, que não entende que a ética não se aplica às necessidades fisiológicas.
Ando horas por dia, bebo cinco litros de água, e não pretendo entrar em cada estabelecimento para urinar. Urinar é ato humano, degradável, mas inevitável. Há até a urinoterapia!
Então decido regar discretamente as plantas — um gesto quase ecológico — e, enquanto me alivio, o motoboy grita:
“Vai, seu mijão!”
Ignora o fato de que ele mesmo polui o ambiente com CO₂, com ruído, e espalha lixo no chão.
Não entende que a ética só trata daquilo que pode ser diferente do que é. Necessidades fisiológicas não são dilemas morais — são evidências da carne.
Certa vez, no local em que eu trabalhava, todos os banheiros masculinos estavam ocupados. Eu, com um rolo de papel higiênico na mão, fui ao feminino.
Uma mulher, indignada com a invasão simbólica, me filmou dizendo que enviaria o vídeo à prefeitura.
Essa nasceu para ser motoboy.
É claro que sou discípulo, ainda que levemente, de Diógenes — aquele que só não andava nu para não ser preso.
Ele abandonou sua caneca no exato momento em que viu uma garota beber água com as mãos: percebeu que o utensílio era supérfluo.
E carregava uma lanterna acesa em plena luz do dia.
Nietzsche recorda essa cena na passagem do Homem Louco — o que gritava “procuro Deus! procuro Deus!” ao meio-dia — inspirada em Diógenes, que usava a lanterna para procurar um homem honesto.
Talvez eu também devesse andar com uma,
para ver se encontro um motoboy inteligente.