
Nossa mente é hábil para inventar desculpas para nossas incapacidades.
Então, se estou gordo e tenho preguiça de treinar, digo: “Ah, mas sou gordo, porém feliz.”
Ele é um gordo tão feliz, tão risonho…
Esses que riem são, muitas vezes, os mais angustiados.
Os mais tristes.
Principalmente quando a diabetes e a hipertensão — como fantasmas biológicos — impõem-se como realidade.
Ou quando eu não escrevo porque “estou sem tempo” — afinal, há coisas mais importantes que as palavras.
Mas, na verdade, você não escreve porque não há nada a dizer.
Se o pensamento é constituído de linguagem, e seu pensamento é um grande vazio, logo não há nada o que dizer — muito menos o que escrever.
Mas quem dera que essa sua lacuna de tempo no Recanto você estivesse preenchendo com alimento para a alma, para o pensamento, para a escrita…
Mas não.
Quem não escreve leva uma vida resignada — como o homem que dorme de George Perec.
A médica está fazendo coisas de médicas que ainda nem médicas são:
plantões e, pelas fotos que vi, comendo rosquinhas e assistindo televisão.
Não surpreende que a aparência e o pensamento dela estejam cada vez mais parecidos com os do Homer Simpson.
E a advogada deve estar — sei lá — fazendo as coisas que advogados fazem…
Essa criptografia da linguagem escrita convertida num dialeto totalmente incognoscível, com ritos e liturgias que nem possuem a beleza retórica dos grandes sofistas e antífrases como Protágoras, por exemplo.
Essa está amarela de verdade — mas de anemia.
Vai ver que a perda de fome pela cultura vem acompanhada pela do alimento físico também.