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DAVE LE DAVE
SIM, ELE MESMO
Textos


MINHA PROFISSÃO ATUAL: “NEPOBABY”

 


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A TRADIÇÃO DO PRIVILÉGIO

Um exemplo que agradaria profundamente Sérgio Buarque de Holanda quando fala da tradição de patrimonialismo que o brasileiro tem — que é apropriação do dinheiro público para enriquecimento pessoal.

 

Um cantor recebeu 880 mil reais para fazer cerca de oito shows em São Paulo, sem licitação, sob a justificativa de que seria um artista consagrado. Sua audiência no Spotify? Sete audições, pasmem… por mês.

Mas talvez ser primo de quem? De um secretário do MDB do gabinete do prefeito senhor Nunes — esse mesmo cuja administração retira os benefícios dos contribuintes do Estado de São Paulo… — tenha ajudado

 


 

HERDEIROS DO ESTADO

O termo nepobaby é um eufemismo usado por artistas que seguem o legado dos pais — esses sim, como Sandy, Leandra Leal, Fernando Torres, Gregorio Duvivier — mas que têm carreira apesar dos pais.

 

Agora, há esses cidadãos que, se não fosse a política e o Estado, morreriam de fome. E são os mesmos que costumam pedir “Estado mínimo”, como a família corrupta de Bolsonaro.

 


 

O BRASILEIRO CORDIAL

No Brasil, há essa dificuldade de separar o pessoal do impessoal.

As relações das corporações são tragadas pela cordialidade, pelas emoções do brasileiro. O brasileiro separa a sua casa — e tudo que é diferente da sua casa é estranho.

 

Por isso, quando alguém de fora chega, ele oferece algo. É por isso que a casa do brasileiro costuma ser limpa: nela, ele é uma pessoa.

Mas o brasileiro não se enxerga como cidadão, impessoalmente. Não pensa no bem coletivo, só no bem próprio.

 

Por isso rouba, se apropria do bem público, suja as ruas. E só consegue resolver as coisas pelo “jeitinho brasileiro”, que nada mais é do que tornar-se “parte da família” de quem está no governo — passar do impessoal para o pessoal.

 

É a lei de Gérson. E talvez, também, a lei de Gil que rege nosso país.

 


 

O PRIVADO COMO ESPAÇO PÚBLICO

A rua é extensão do que é estranho, mas ao mesmo tempo um espaço público do que acontece no ambiente privado.

 

Por exemplo: minha mãe foi ao mercado e comentou com a moça do caixa que meu filho prefere a comida de determinada marca. A moça respondeu:

“Seu filho não é um moreno que vem ao mercado e fica vendo as calorias de todos os alimentos?”

 

As pessoas escrutinam a vida privada; elas sabem o que se passa. Por isso, quando agimos, não influímos apenas no que ocorre dentro de nossas casas — nosso comportamento forma e deforma as pessoas.

 

Se sou visto como uma pessoa que treina, que estuda, que tem uma boa imagem, posso mudar uma comunidade.

Se sou um bom cidadão e carrego o lixo para jogar em casa, alguém pode ver e copiar.

 

E também o contrário.

Como diz Sartre, ao agir eu não exerço apenas minha liberdade — eu mostro a sociedade ideal que eu queria.

 


 

ENTRE O FAVOR E A CONSCIÊNCIA

Minha mãe arrumou um emprego na prefeitura para mim.

Mas meu irmão trabalha em uma das maiores empresas — uma multinacional alemã de certificação de produtos, home office.

 

E fui eu quem o indiquei, porque havia uma vaga para mim.

Ele tem filho para cuidar, eu estava em um mau momento, e ele tinha mais de dezesseis anos de experiência em comércio exterior. A transição para fazer o trabalho difícil de logística e auditoria foi simples — ele já havia trabalhado em equivalentes ao Bayern de Munique da Alemanha: Siemens e Kuehne + Nagel.

 

Foi simples.

E o dinheiro para arrumar a casa dele fui eu quem dei, no tempo em que era empresário.

Eu, que hoje sou quem sou, pela minha mãe e por ele, e também por meu pai.

 

Enquanto outros apontam o dedo, mas têm sua faculdade paga pelo pai, ou estudam em universidades estaduais e o pai paga aluguel, compra carro ou financia apartamento.

 

Essa hipocrisia nojenta de quem aponta sem perceber a sujeira debaixo do tapete é o que mais me enoja na sociedade.

É como a cena de Os Irmãos Karamázov, de Fiódor Dostoiévski — onde o julgamento moral se torna o espelho sujo da própria culpa.



A DIGNIDADE DO TRABALHO

Migrei para a área da saúde — que, na verdade, era um benefício que me tiraram de uma hora para outra, sem justificativa.

Eu, que faço melhor uso do dinheiro público do que 99% dos contribuintes.

 

Acordo antes das seis, vou dormir antes das dez.

Nesse tempo, fico mais em movimento do que parado.

E quando estou parado, estou pensando, lendo, escrevendo, me alimentando — numa rotina militar, de produção fordista da inutilidade feliz e desejante de saúde deleuziana, que diz que a literatura é uma forma de saúde, assim como a cultura, o cinema e o cuidado do corpo.

 

Mas também o equilíbrio, o dolce far niente, a contemplação.

 

Se o que faço não fosse difícil e trabalhoso, não existiria tanta gente ignorante e gorda.

E quantos são os aposentados, os que recebem auxílios — mas quantos se dispõem a ter a rotina que levo, que impus a mim mesmo, sem nenhum patrão me obrigar?

 



A NOBREZA DO ESPÍRITO

É uma excrescência ver como algumas pessoas fazem uso do dinheiro público — ou como os ricos acumulam capital e não conseguem converter esse capital em distinção social de fato.

 

Eles se tornam proletários endinheirados, porque não têm o espírito necessário para desfrutar do próprio capital que possuem.

ESCRITOR DAVE LE DAVE II (OFICIAL)
Enviado por ESCRITOR DAVE LE DAVE II (OFICIAL) em 16/10/2025
Alterado em 16/10/2025
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