
A torcida organizada do Palmeiras tem essas camisetas, vistas até por torcedores comuns, com a frase: “Antes MORTO do que PRETO e BRANCO.”
A palavra morto aparece em vermelho, e a camisa é branca, com as demais letras em verde — cores do Palestra Itália.
Mas ironicamente, os times com os quais a torcida mantém alianças no Brasil têm justamente o preto e o branco como cores principais — Atlético, Vasco, River Plate, em certa medida…
E ainda assim, será que eles também não usam preto e branco no dia a dia? NUNCA usaram?
É esse estrabismo simbólico que não me faz compartilhar a visão de mundo da torcida organizada — que transformou torcer para um time em uma profissão.
E, como sabemos, tudo que se torna útil e político é o contrário da felicidade, pois passa a ser instrumental.
É por isso que eu não falo o nome da torcida organizada, embora ela seja importante para o espetáculo.
Mas, sinceramente, se o time jogasse só para mim, como telespectador — como foi na COVID, com o estádio vazio — ou como em certos filmes cult que só eu assistia, para mim não faria a menor diferença, porque eu desfruto do espetáculo.
É ridículo alguém se identificar apenas pelo time que torce e não fazer nada da vida além disso.
O time é uma extensão, uma soma de quem sou — mas jamais poderá me definir.
O trabalho que faço no dia a dia independe do trabalho dos jogadores em uma partida, onde a fortuna também interfere.
Eu desfruto do jogo que amo, e do time pelo qual nasci torcendo e com o qual me identifico esteticamente desde sempre — a Sociedade Esportiva Palmeiras.
Por isso, para mim, é indiferente vestir a camisa do time nos jogos, a não ser dentro das cores do clube, para expressar minha individualidade, que é mais importante do que tudo.
Gosto muito dos livros de Nick Hornby, com quem partilho duas, talvez três ou quatro paixões em comum — vá lá, cinco.
Alta Fidelidade fala de música, comparando listas de canções a relacionamentos, e, portanto, fala de mulheres.
E Febre de Bola, em que ele acompanha o Arsenal e relembra temporadas inteiras até a década de 90, revela uma memória fotográfica que transforma a literatura em crônica esportiva e lirismo.
E como ele é escritor, é óbvio que, assim como eu, ama escrever — e deve amar livros.
Portanto: música, futebol, mulheres, escrita, e, como seus livros foram adaptados para o cinema — Um Grande Garoto, outro excelente filme — temos tudo isso em comum.
A diferença é que eu sou cabeludo, bonito e atlético ainda por cima.
Por enquanto, pelo menos.
E falo de alta cultura, alta costura, alto desempenho, alto tudo.
É por isso que, para mim, é simbólico ser sócio cinco estrelas do Palmeiras.

Nos últimos sete jogos em casa, o time tem média de quase quatro gols por partida — e eu, como Hornby nos anos 80, estive presente em todos.
Estou vendo a história sendo escrita diante dos meus próprios olhos.
Com a terceira — ou quarta — academia do Palmeiras de Abel Ferreira, com o ataque Flaco e Roque, que lembram Edmundo e Evair, Andreas Pereira jogando como Djalminha, e Aníbal como nosso Flávio Conceição…
O futebol é tão mágico que me permite dizer isso sem soar herético.
Muito diferente do aforismo absurdo da torcida organizada que só canta.
Eu amo o Palmeiras, mas sem o futebol o Palmeiras não existiria — por isso, amo sobretudo o jogo.
Mais do que o jogo da competição, amo o jogo da vida, que tento viver em sua totalidade.
E nessa totalidade, o Palmeiras tem papel fundamental.