
Apesar do título, este é um texto-homenagem.
Uma entrega simbólica da medalha de ouro, no pódio, a quem realmente merece.
Mas aqui só há uma vencedora — e as outras duas são apenas perdedoras.
Não glamorizemos a derrota.
Se uma pessoa decide livremente deixar de ser ela mesma para se tornar sua profissão, então eu faço questão de me referir a elas como “a médica” e “a advogada”.
A médica, eu estendi a mão para ajudá-la no Titanic em que estava, mas ela preferiu tocar violino — e o pior é que sua profissão nem tem o charme de ser artística, como as dos violinistas. No máximo ela toca realejo.
Pode ser que, depois dos últimos textos, ela nem me leia mais.
O que mostra que ela não amava outra coisa senão a aparência; não me amava de verdade, nem os valores que dissemino na minha página — cultura, arte, entretenimento, beleza.
Meu conteúdo não é para qualquer um.
Algumas pessoas não têm capacidade para entender, mesmo eu pasteurizando e mastigando.
Algumas simplesmente não são do ramo.
Eu não sou como o deus Dionísio, que achava graça nas orelhas pequenas de sua amante Ariadne e as puxava para ver se ela conseguia entender melhor.
Eu não sou capaz de produzir orelhas melhores.
Sou apenas responsável pelo meu próprio conteúdo.
E as decisões dela — o medo, o mascaramento da verdade, o fingimento de desdém enquanto naufraga junto com as amigas — são mostradas pelos sintomas de suas imagens.
Ora, médicas se encontram aos montes.
Mas uma artista, alguém que escreve poesia, que tem conteúdo e ainda é bonita — isso é raro.
Isso não se vê todo dia.
E não é o caso dela, definitivamente.
Você acha que eu deixaria meu filho nas mãos de uma médica cuja imagem não reflete saúde, que não sabe se comunicar?
Agora, eu confiaria a vida dele na primeira médica que fosse o exemplo de coerência e essência.
É por isso que eu não consigo sentir ciúmes dela — nem de seus pretendentes — e nem ódio.
Porque o ódio é mais fiel que o amor.
O que sinto é apenas indiferença, talvez raiva.
É como a jurisconsulta, que fora da advocacia até tem talento com as palavras, mas que aceita como homem o primeiro que sabe de cor um artigo do código penal — mesmo que seja vinte anos mais velho — desde que seja tão desinteressante quanto as leis.
O que ambas têm em comum é que, quando eram interessantes, era quando eu exercia uma influência positiva.
É por isso que eu tenho que resgatá-las da banalidade — senão acabam com o primeiro idiota que aparece, o que costuma ser vários.
Aí já não escrevem mais.
Aí já são apenas suas profissões.
Muito diferente da garota com nome de seriado proibido para menores, um nome que une um mais antigo com um novo — símbolo do charme antigo e da modernidade.
Com o cabelo tão dourado que Teseu poderia usá-lo para fugir do labirinto do Minotauro.
Seus cachos loiros são tão bem cuidados, e devem ser tão cheirosos, que só de ver a foto eu quase consigo sentir o perfume mesmo sem tocar.
Minha vontade instintiva é deslocar os fios para o lado e beijar sua nuca, aspirar seu cheiro por completo.
Se ela me lê — como parece — eu teria que escrever de smoking, como um pianista, tamanha a elegância dela.
E ela sim é coerente, autêntica — pela aparência e pelo espírito.
Convenhamos: apesar das outras duas serem incrivelmente belas, ela é mais.
De corpo, rosto e, principalmente, de alma.
Ela estuda arte.
Não tem redes sociais.
Não se presta à popularidade útil.
Mesmo que isso lhe traga o anonimato, até a miséria — mas nunca a espiritual, porque quem tem alma grande tem tudo.
O único senão é que eu gostei dela pelo que ela escreve, não pelo fato dela me ler.
É claro que, se há um 69 de identificação, é o melhor do mundo.
E eu queria lê-la por completo.
Lê-la da cabeça aos pés.
Até aprendê-la de cor, até ser capaz de recitá-la de memória.
Mas talvez o privilégio e prazer em lê-la, ainda que sob pseudônimo, num dia em que eu estava triste —
sabe aqueles dias, como em Pierrot le Fou, de Godard, em que você só conhece idiotas e começa a desconfiar de si mesmo?
Li algo engraçado num perfil do Recanto que me fez acreditar novamente na vida, na arte, no amor, na inspiração.
E quem me lê sabe: a beleza e a inteligência me deixam mais excitado do que qualquer Viagra.
Ela e eu formaríamos um casal (impossível?) que parece ter saído direto de um filme de Godard.
É dela, o pódio de primeiro lugar.