
Eu quero capturar a magia — ou a loucura — do que sonhei ainda no calor — ou estupor — do momento.
Só não batizei o texto de O Sonho de um Homem Ridículo porque Dostoiévski me plagiou retroativamente, apenas teve a sorte de nascer antes de mim.
O sonho foi assim:
Saí para caminhar e, do nada, por esses mecanismos estranhos dos sonhos, percebi que, de uma noite para outra, o prefeito havia resolvido mudar a arquitetura da cidade para o estilo da Grécia Antiga.
Sim — tudo ainda estava lá: minha antiga escola, a estação de trem, os mesmos prédios e ruas. Mas agora, entre eles, erguia-se uma paisagem de colunas dóricas e jônicas, templos com frontões triangulares, anfiteatros de mármore e estátuas de deuses com olhares de pedra. Havia até uma ágora, uma praça onde os filósofos se reuniam em torno de um poço, e uma stoa, com longas colunatas, onde os estóicos discursavam sobre a virtude e o destino.
(As casas pareciam feitas de luz e pedra; o vento soprava como se tivesse passado por milênios antes de tocar meu rosto.)
Então, passando por ali, vi o prefeito sendo entrevistado.
Eu queria dizer que ele estava vestido com uma túnica, ou com aqueles mantos brancos que a gente vê nas pinturas de Sócrates e Platão — mas seria mentira. Ele vestia roupa normal mesmo.
Meu sonho unia a Grécia antiga à contemporaneidade, a razão clássica ao devaneio pós-moderno.
E o prefeito — que, como em todo sonho, não tinha rosto (ou tinha aquele rosto indistinguível, típico dos sonhos, como se o inconsciente não tivesse terminado o render) — dizia diante das câmeras:
“Nosso projeto é voltar mais às nossas raízes, valorizar as nossas origens, unir o tradicional com o que nosso bairro tem de melhor… para aumentar o turismo.”
Não sei se agradou a todos.
Mas eu diria que, pra mim, isso seria um sonho.
Até porque — literalmente — foi um sonho meu.
E, de certa forma, talvez todo sonho lúcido seja isso:
um prefeito imaginário reformando nossa mente à moda antiga, com colunas gregas sustentando as ruínas do presente.