
Vocês gostam dos meus exemplos cinematográficos, não gostam?
Mas hoje, vou começar com os quadrinhos.
Meu personagem favorito da Turma da Mônica — que, aliás, foram os quadrinhos que me inseriram no mundo mágico da leitura — apareceu quando eu ainda tinha medo de dormir sozinho.
Ficava lendo as revistas da Turma da Mônica que minha mãe assinava, madrugada adentro, junto com a Veja Kids +, e a Superinteressante. É por isso que, hoje, não sei fazer outra coisa melhor da vida do que ler.
Curiosamente, o estúdio do Maurício de Sousa fica perto da minha casa, na Lapa — perto da primeira empresa onde trabalhei. Uma empresa enorme, multinacional, de vidro espelhado, igual à do Maurício. Sempre que vou à estação Barra Funda de trem, passo por seu império.
E meu personagem favorito é, justamente, o Cebolinha — palmeirense como eu (embora eu já fosse palmeirense antes dele). Mas o que mais me fascinava era o Louco. Achava divertidíssimo o modo como ele chamava o Cebolinha de “cenourinha” e as situações insanas que criava.
O Louco sempre esteve ligado à autenticidade.
Na história da filosofia, ele se conecta aos cínicos — escola cujo nome vem de kynikos, “como um cão”. Eram os que viviam como cães: selvagens, à deriva, livres das convenções sociais.
Como no filme Na Natureza Selvagem, de Sean Penn, onde o protagonista busca uma vida autêntica, distante das amarras do mundo civilizado. Ou como Forrest Gump, cuja condição “retardada” lhe dá a possibilidade de viver uma vida genuína — e, justamente por isso, alcançar feitos grandiosos: ser herói de guerra, esportista, ícone nacional, conhecer presidentes.
E tudo começa com Diógenes, que dizem ter vivido num barril — figura que, dizem, inspirou o Chaves.
Diógenes não ligava para convenções sociais.
Dizia-se que chocava a sociedade de propósito. Fazia tudo aquilo que os outros reprimiam: masturbava-se em público, urinava, vivia literalmente como um cão.
Certa vez, usava um utensílio para beber água. Até que viu uma garotinha beber com as mãos, em concha. E aquilo foi um grande aprendizado para ele. Jogou fora o objeto, considerou-o inútil e passou a viver cada vez mais como cão.
Como cínico.
Como louco.
Mas, acima de tudo, autêntico.
E é nessa autenticidade que me reconheço.
De médico eu não tenho nada — afinal, nem gosto de ver injeção. Não suporto sangue. Mas de louco, todos temos um pouco — concordaria o Alienista, de Machado.
Eu sou o que sou.
E, como se pode ver nas minhas fotos de infância, sou exatamente o mesmo.
Apenas mais velho.
Devo dizer: levo uma vida autêntica.
Talvez realmente um pouco louca.
Mas sou contra aquela música dos Stone Roses, I Wanna Be Adored.
Eu não quero ser adorado.
Não quero fama.
Só quero ser eu mesmo.
Mesmo que às vezes eu tenha criado tendências — como quando pintei o cabelo de amarelo em 2002, na quinta série, usei cadarço laranja e fui um pequeno dândi mirim. Eu era certamente um dos cinco mais populares da escola.
Eu não era o David ou o Dave Le Dave, mas todos conheciam o Pulguinha.
Naquela época, os mais populares — o top of mind da escola — eram o James, que era o galã e pegava todas (mas hoje, digamos, está bem diferente), o Jack, arruaceiro mirim, fundador do Primeiro Comando Escolar (se estiver vivo, deve estar no comando real… ou preso. E se for preso, o apelido vai lhe dar problemas. Ainda assim, é melhor que estar morto).
E o terceiro era eu.
Sou o mesmo daquela época — só que com barba. Tanto que até o diretor já veio à minha casa. Eu não ia às aulas de Educação Física, a não ser no futebol. Um dia, o professor foi me procurar em casa (enquanto eu assistia Rebelde — sim, sou desses: “E sou rebelde…”).
Ele achou minha casa só perguntando por onde eu morava.
E quem vejo?
Aquele homem de dois metros perguntando por que eu não ia à Educação Física.
Quanta preocupação…
Quem liga pra Educação Física quando pode ver Roberta e Mia?
Eles que mudassem o horário da aula!
Se eu me dava bem com as garotas?
MENOS do que poderia.
Eu não usei o poder da minha popularidade. Muito porque boa parte das meninas que gostavam de mim eram as estudiosas — e, claro, não pegava bem admitir isso. Gostavam “em off”, só se eu insistisse.
E essa vem sendo a história da minha vida até hoje:
convencer essas garotas que estudam que eu não sou tão louco assim.
Ou, talvez, mostrar que há método na minha loucura.
Porque, no fim das contas, é ela que me torna autêntico.
Sem ela, eu seria menos o Pulguinha, menos o Dave — e mais o David.