
Não quero mais saber de médicas! E não me venham dizer que dentistas, fisioterapeutas, homeopatas são médicos só porque vestem branco. Daqui a pouco vão começar a chamar de doutor até pai de santo.
E se for usar o argumento de que médico cura, alguns pais de santo são mais eficazes com suas mandingas do que certos médicos e profissionais de saúde, usando, inclusive, como método, evidências científicas similares.
Médico é um proletário de classe média. Principalmente o recém-formado, plantonista, generalista, que é o equivalente a trabalhar no McDonald’s na escala dos médicos.
É curioso que, na maioria das vezes, o lanche deles seja justamente McDonald’s, e o vocabulário do médico esteja ali, pau a pau, com o de um atendente de caixa do mesmo estabelecimento.
O Igão, que hoje está no Podpah, era chapeiro do McDonald’s. E agora, qual médico a sociedade consagrou? Só consigo pensar em Drauzio Varella e Geraldo Alckmin. E olha que por quê: um é um velho maratonista que trabalhou no Carandiru e na Globo; o outro é político.
Aí você vai dizer que grandes médicos foram escritores, como Guimarães Rosa… mas eles o foram apesar da profissão, e não por causa dela.
E só são conhecidos mundialmente como escritores. Ninguém fica famoso pela sutileza da poesia de fazer uma incisão cirúrgica — a não ser com palavras. Guimarães não foi contaminado pela linguagem técnica.
Assim como não foram alguns advogados, como Machado, Suassuna, Sérgio Buarque de Holanda. Sérgio Buarque de Holanda, inclusive, ganhou dinheiro mesmo como jornalista e só virou intelectual ao entrevistar Thomas Mann, ter contato com a cultura alemã, com Nietzshe , Weber, e reiterpretar esses conceitos para o seu Raízes do Brasil.
Thomas Mann, esse sim, tem um capítulo muito bonito em A Montanha Mágica, que de certa forma fala de saúde passada em um sanatório, usando termos técnicos de medicina e transformando-os em poesia, mostrando a fluidez da linguagem em que tudo pode ser poesia, em um dos capítulos mais líricos de todo o livro.
Então eu, que sou um copiador, um escriba, alguém que só copia os grandes autores, mas usando a minha criatividade para reiterpretá-los — que, na verdade, é esse o trabalho de qualquer intelectual autoral: criar, exprimir sua potencia no mundo através das suas circunstâncias — eu, como sou um cineasta que não filma, um escriba sem livro publicado, alguém que gosta de moda, só posso me relacionar com uma quase atriz, uma quase escritora e uma quase modelo.
Ainda bem que elas não são muito raras. O mundo está cheio de anônimas esperando para ser descobertas. O meu papel, como diletante da beleza, é descobri-las.
Só não posso consagrá-las, pois elas são como eu: totalmente anônimas. Graças a Deus.