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DAVE LE DAVE
SIM, ELE MESMO
Textos


OS PRODUTORES DE CONTEÚDO SEM CONTEÚDO!

 



DAVELEDAVE.RECANTODASLETRAS.COM.BR

 



A ERA DO VAZIO DIGITAL

Incrível: agora o pessoal posta uns negócios aí na internet, umas frases apócrifas, rebola, mostra a bunda, explora a sexualidade de crianças, e por isso se autodenomina “produtor de conteúdo”.

 

Nunca se reduziu tanto o significado da palavra conteúdo. Ora — pra ter conteúdo é preciso conter algo, o que definitivamente não são os casos do pessoal que eu citei.

 


 

O ABISMO DO SENTIDO

Em O Mito de Sísifo, a resposta final que Camus dá à constatação de que a vida é um absurdo — porque não há nenhum sentido para existir algo no lugar do nada, quando perfeitamente poderia existir nada — é a seguinte:

 

o suicídio, por mais que pareça razoável, não é a saída. Ele abre o livro dizendo que é a única questão filosófica importante — se a vida vale ou não a pena ser vivida —, mas dá um salto retórico para afirmar que devemos imaginar Sísifo feliz, mesmo numa tarefa árdua e repetida.

 

Essa felicidade, segundo ele, se dá de duas formas: viver intensamente o tempo presente, extraindo dele o máximo possível — Camus, nesse sentido, é um precursor do mindfulness, que nada mais faz do que beber da sabedoria oriental.

 

A outra forma é viver uma vida artística, autoral — a criação de si como obra de arte.

 


 

O DIA DA MARMOTA

Por mais que pareça repetitivo — um Dia da Marmota, como no belíssimo filme Feitiço do Tempo, com Bill Murray —, a repetição nos leva à nossa melhor versão.

 

Ela nos obriga a tomar melhores decisões, mesmo errando no começo. Assim como faz Murray no final, quando consegue viver o dia perfeito — o eterno retorno perfeito de Nietzsche.

 

A maestria é banal.

E a repetição das mesmas coisas com consistência é o caminho até a maestria.

 

O que separa os bons dos medíocres é a capacidade de fazer as coisas difíceis quando ninguém mais está a fim — em semanas curtas, feriados, chuvas, finais de semana — com consistência.

 

Cada vez que faço algo diferente da média, eu fico efetivamente acima da média.

 


 

O INVISÍVEL E O LEGADO

Minha intenção pessoal com isso não é nada modesta: os resultados da consciência são, muitas vezes, invisíveis — manifestam-se em forma de saúde, cultura, conhecimento.

 

Meu objetivo é tornar visível o resultado invisível de minhas ações. Seja pela simples contemplação da minha imagem — que já permite presumir o nível de dedicação exigido para se chegar a esse resultado —, seja pela materialidade das obras, do legado, do conteúdo mesmo: o recipiente no qual se coloca algo.

 


 

OS ESCRAVOS DO ESPELHO

Nada é mais ridículo do que preencher o vazio do absurdo com evasão — com o cuidado excessivo do corpo e apenas isso.

 

Sujeitos que caminham, mas não sabem pra onde. Trabalham, porque o trabalho os distrai da condição humana. Procuram o respaldo de seu esforço não nele mesmo, mas no olhar do outro — da sociedade, da legitimação do capital.

 

Seus valores e seus gostos não são moldados por si, mas pela publicidade e pela economia.

 

Esses não são artistas da vida — tiveram-na sequestrada pelo tempo, que já não lhes pertence.

 

Nem dá pra dizer que pertencem a si mesmos.

 



O INÚTIL QUE TEM VALOR

A verdadeira atividade — o verdadeiro conteúdo — é totalmente inútil.

Não se presta a nenhuma finalidade além de si mesma.

 

É assim que, no fim, o que tem valor é inútil: o beijo da pessoa amada, o gol do time do coração, a cena do beijo recortada em Cinema Paradiso, um belo texto escrito como este — meu texto.

 

Um verdadeiro produtor de conteúdo.

 

Como eu.

 

ESCRITOR DAVE LE DAVE II (OFICIAL)
Enviado por ESCRITOR DAVE LE DAVE II (OFICIAL) em 12/10/2025
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