
Incrível: agora o pessoal posta uns negócios aí na internet, umas frases apócrifas, rebola, mostra a bunda, explora a sexualidade de crianças, e por isso se autodenomina “produtor de conteúdo”.
Nunca se reduziu tanto o significado da palavra conteúdo. Ora — pra ter conteúdo é preciso conter algo, o que definitivamente não são os casos do pessoal que eu citei.
Em O Mito de Sísifo, a resposta final que Camus dá à constatação de que a vida é um absurdo — porque não há nenhum sentido para existir algo no lugar do nada, quando perfeitamente poderia existir nada — é a seguinte:
o suicídio, por mais que pareça razoável, não é a saída. Ele abre o livro dizendo que é a única questão filosófica importante — se a vida vale ou não a pena ser vivida —, mas dá um salto retórico para afirmar que devemos imaginar Sísifo feliz, mesmo numa tarefa árdua e repetida.
Essa felicidade, segundo ele, se dá de duas formas: viver intensamente o tempo presente, extraindo dele o máximo possível — Camus, nesse sentido, é um precursor do mindfulness, que nada mais faz do que beber da sabedoria oriental.
A outra forma é viver uma vida artística, autoral — a criação de si como obra de arte.
Por mais que pareça repetitivo — um Dia da Marmota, como no belíssimo filme Feitiço do Tempo, com Bill Murray —, a repetição nos leva à nossa melhor versão.
Ela nos obriga a tomar melhores decisões, mesmo errando no começo. Assim como faz Murray no final, quando consegue viver o dia perfeito — o eterno retorno perfeito de Nietzsche.
A maestria é banal.
E a repetição das mesmas coisas com consistência é o caminho até a maestria.
O que separa os bons dos medíocres é a capacidade de fazer as coisas difíceis quando ninguém mais está a fim — em semanas curtas, feriados, chuvas, finais de semana — com consistência.
Cada vez que faço algo diferente da média, eu fico efetivamente acima da média.
Minha intenção pessoal com isso não é nada modesta: os resultados da consciência são, muitas vezes, invisíveis — manifestam-se em forma de saúde, cultura, conhecimento.
Meu objetivo é tornar visível o resultado invisível de minhas ações. Seja pela simples contemplação da minha imagem — que já permite presumir o nível de dedicação exigido para se chegar a esse resultado —, seja pela materialidade das obras, do legado, do conteúdo mesmo: o recipiente no qual se coloca algo.
Nada é mais ridículo do que preencher o vazio do absurdo com evasão — com o cuidado excessivo do corpo e apenas isso.
Sujeitos que caminham, mas não sabem pra onde. Trabalham, porque o trabalho os distrai da condição humana. Procuram o respaldo de seu esforço não nele mesmo, mas no olhar do outro — da sociedade, da legitimação do capital.
Seus valores e seus gostos não são moldados por si, mas pela publicidade e pela economia.
Esses não são artistas da vida — tiveram-na sequestrada pelo tempo, que já não lhes pertence.
Nem dá pra dizer que pertencem a si mesmos.
A verdadeira atividade — o verdadeiro conteúdo — é totalmente inútil.
Não se presta a nenhuma finalidade além de si mesma.
É assim que, no fim, o que tem valor é inútil: o beijo da pessoa amada, o gol do time do coração, a cena do beijo recortada em Cinema Paradiso, um belo texto escrito como este — meu texto.
Um verdadeiro produtor de conteúdo.
Como eu.