
Se os aposentados — que ao longo da vida percebem que não conseguiram extrair nada de realmente bom dela, e por isso se tornam cristãos — já não conseguem pensar em nada melhor a fazer do que colocar um banco na frente de casa enquanto tomam sol e escutam música…
Imagina depois da morte.
E ainda têm a pretensão de viver pra sempre, se justamente o fato de quererem ir para o paraíso revela que não aguentam mais esta vida aqui na Terra — indo, como diriam, “pro céu”.
Talvez eles acreditem que no céu Deus tenha anjos que servem como monitores recreativos, organizando bingos e dominós entre eles e seus entes queridos.
Mas imagina jogarem por toda a eternidade.
Isso me parece mais uma forma de punição do que de recompensa. Mesmo o reencontro com parentes… não há amor que resista à eternidade.
A ideia cristã é tosca: um homem de barba branca.
Os deuses gregos ainda eram mais sofisticados, mais abstratos, mais cósmicos. O divino, para eles, não era um velhinho num trono — era o próprio cosmos.
Na verdade, as pessoas creem não pela esperança na recompensa, mas pelo medo da punição.
Foucault, em Vigiar e Punir, mostra como a punição evoluiu da espetacularização pública — as execuções nas praças — para a marca impressa nos corpos, até chegar à forma mais sutil: a punição marcada na consciência, através da culpa e da vigilância.
Por meio de experimentos mentais e do conceito de panóptico — a prisão ideal proposta por Jeremy Bentham, mais conhecido pelo utilitarismo —, surge a figura do “olho que tudo vê”, mas que os observados não veem.
Nem mesmo o Bial.
Ao acreditarem que estão sendo constantemente observados, os indivíduos internalizam a culpa e passam a se autopoliciarem.
E é exatamente assim que a religião atua nas consciências: se Deus está observando, sentimos culpa; e dessa culpa nasce a noção de que errar diante dos olhos de Deus é pecado — e acertar é virtude, é recompensa.
Levando tudo isso ao sentido lógico, a ideia é absurda — como é absurda a própria existência.
Se Hades é o deus mais rico porque reina sobre a maior população que existe — a dos mortos —, imagine um lugar que reúna todos os mortos ressuscitados em bilhões de anos da Terra, somados aos que ainda virão.
Ou é um lugar muito grande, ou é muito apertado.
Ou, talvez, os que realmente vão para o céu sejam bem poucos.
Então o inferno, além de quente, é apertado — mais do que o trem da Sé, em São Paulo, no horário de pico.
Talvez seja melhor eu me policiar…
Mesmo que a Terra tivesse apenas seis mil anos — o que é, por si só, uma ideia absurda —, isso ainda não resolveria o caso.