
Eu estava no jogo do Palmeiras quando, procurando a escalação do time que golearia o adversário naquela noite, me deparei com a notícia de que Diane Keaton havia morrido.
Na volta do jogo, após a euforia da vitória — quando esquecemos de tudo, até da morte — vi, na televisão de um bar palmeirense, um filme de Woody Allen passando. Parei, curioso.
“Nos dias de hoje, um filme cult exibido em um bar de futebol não é algo que se vê todo dia”, pensei.
Mas logo meu cérebro fez as sinapses corretas. Não era um filme: era uma matéria sobre os filmes que Diane Keaton havia feito. Claro — quem a consagrou foi Woody Allen, principalmente em Annie Hall, o filme que estava sendo exibido naquele momento em que eu passava.
Porém, há charme também em outros filmes com Diane, da fase da comédia mais física de Allen — algo mais Buster Keaton — como O Dorminhoco e A Última Noite de Boris Grushenko. Ambos os filmes têm uma cena impagável com os dois atuando juntos: uma com o cinto de castidade, outra quando os dois vão fazer a operação de transfusão para roubar o nariz.
E claro, em Manhattan, onde ela faz a jornalista intelectual — naquela cena linda, contemplando a ponte de Manhattan — mas o personagem de Allen prefere ficar com a lolita de 17 anos. Como parecia ser a própria predileção da vida pessoal de Allen, já prevendo o que aconteceria no futuro com Mia Farrow.
Quando olhamos as musas de Allen — Diane Keaton, Mia Farrow — vemos que elas têm a coincidência de serem talentosas, excelentes atrizes, mas “musa” talvez seja um baita exagero.
Não são exatamente o exemplo de beleza incontestável que Platão traz em Fedro, aquele ideal que todos reconhecemos.
Não são como as musas suecas de Bergman, as de Fellini e Antonioni, as de Godard e Truffaut, nem como as estrelas da Hollywood dourada dos anos 40 e 50.
Elas são meio exóticas. Talvez aquela coisa de ser “musa pelo intelecto” tenha a ver com o fato de que Woody Allen, como gostava de atuar em seus próprios filmes, jamais poderia ter uma mulher muito bonita como par: não haveria verossimilhança.
Por isso, talvez, a escolha dessa beleza esquisita que encanta.
Mas Keaton surgiu em O Poderoso Chefão. É curioso: um imigrante judeu como Allen, vivendo em Nova Iorque, descobre sua atriz — e amor — em um filme de mafiosos italianos também vivendo em Nova Iorque.
Se ele não fosse tão anacrônico, a atriz ideal seria a que fez Deborah, em Era Uma Vez na América, de Sergio Leone — porque aí sim seria uma máfia de judeus em Nova Iorque, ironicamente dirigida por um italiano.
Não deveriam ter chamado Woody Allen? Talvez. Mas estragaria o ritmo dos tiroteios — os diálogos inteligentes de Allen saindo da boca de um mafioso soariam cômicos. Talvez por isso não.
Mas este texto não é uma homenagem — nem a Allen, nem às suas musas, nem à morte, nem à velhice.
Como é triste ver rostos que você achava belos nas fotos de outrora já marcados pelo tempo. Algo que nunca faço é procurar fotos das musas dos filmes que amo fora da época em que elas atuavam.
Gosto de ter a inocência de acreditar que minha consciência é capaz de preservar a juventude e a beleza — como o bálsamo das múmias.
Só me deparo com essa falsidade quando vejo o anúncio da morte delas. Como foi com o caso de Diane.
Rest in peace, Diane.
Na minha memória, você permanece linda, de roupa de tênis — mesmo jogando muito mal — e cozinhando lagosta.