
A diferença entre Anita e Lolita é que Lolita, pra falar, a língua vai no céu da boca: “lo” — depois baixa — “li” — depois sobe novamente em êxtase para falar o “to”, o som final. Igual ao movimento do sexo oral.
E não é só coincidência.
E Anita — a boca abre, fecha, e volta a abrir, como um beijo que começa, se interrompe por uma intromissão qualquer, talvez um pássaro tenha pousado no ombro da amada para observar — mas o beijo volta a acontecer, mais intensamente, com mais desejo do que se fosse antes.
E também não pode ser coincidência.
A versão de Lolita de Kubrick é brilhante, ao fazer o rival de Humbert ser interpretado pelo carismático Peter Sellers, em contraste com sua personalidade insossa, professoral.
O diferente, o humorado, combinava mais com o espírito das jovens — inclusive com o amor.
Mas não entendo por que o espírito de gravidade, para usar a linguagem de Nietzsche, e o da dança — do riso, da leveza — não podem coexistir no mesmo espírito.
Se me perguntarem, afinal de contas, “David, qual é sua tese de vida?”, eu diria:
a verdadeira nobreza não é proveniente de herança.
A aristocracia não tem nada a ver com dinheiro ou nascença, mas é uma questão de espírito, de gosto.
É com essa régua — a do corpo, a dos sentidos — que o ser humano deveria avaliar todas as coisas.
Nesses estados anímicos que o corpo passa, conforme ele está em constante transformação, surgem estados ora mais, ora menos otimistas.
Em alguns indivíduos, mais alegres, mais risonhos; em outros, tristes, enfadonhos — tanto pelo modo como o mundo os atinge, quanto pelo modelo cognitivo de quem interpreta as informações do mundo de modo pessimista.
E isso se reflete no comportamento, no modo como a pessoa se apresenta no mundo.
No meu mundo interior coexistem o riso e a gravidade da seriedade com que levo a cultura, o cuidado de si, o cultivo da alma.
O mundo da aparência é a única maneira possível de enxergar a realidade, porque ela sempre passa pela lente da nossa percepção subjetiva.
Nesse meu mundo coexistem o Dave que pronuncia oral e sexualmente Lo-li-ta — a língua em cima, embaixo, em cima novamente — pronunciando sem parar até o momento do esgotamento.
E é tão eloquente essa semelhança das sílabas de Anita, com o movimento do beijo que começa, se interrompe e depois continua com maior intensidade.