
Ontem, na academia, vi uma cena que me fez compreender a ideia de Thomas Mann de que a beleza é uma forma de pensamento — que um pensamento belo conduz, inevitavelmente, a uma boa ação.
Eu estava fazendo meu cardio, como sempre, quando um rapaz — dos mais atléticos e fortes que há ali — viu sua mulher exaurida no aparelho ao meu lado.
Ele, atento, entregou-lhe uma garrafa d’água, num gesto tão natural quanto necessário.
Ela, surpresa, recebeu o cuidado como quem é vista por inteiro.
Uma mulher muito bonita, aliás, com um olhar impossível de ignorar, com olhos claros, cristalinos, como a água que ela acabara de receber…
Aquilo me pareceu uma forma de beleza. Beleza em forma de cuidado.
Esse tipo de beleza — discreta, diligente, quase sagrada — desapareceu do cotidiano dos relacionamentos.
Fiquei, confesso, constrangido.
Porque é difícil desejar a mulher de um homem que a trata tão bem.
Se ela passar por mim, de soslaio, fingirei não reparar em seus glúteos — não por falta de vontade, mas por respeito à nobreza do gesto que testemunhei.
Há uma beleza moral no cavalheiro moderno que ainda sabe servir.
Eu sou muito suscetível à beleza.
À beleza do gosto, da forma, da estética.
Àquela que agrada aos sentidos, que pertence ao mundo das aparências — não à da verdade.
Sócrates, em diálogo com Hípias, já desconfiava disso: perguntava o que é o belo em si, e o sofista, sem entender, respondia que o belo é uma bela donzela, um belo cavalo, um belo vaso de ouro.
Mas Sócrates insistia — tudo isso é apenas aparência.
O belo verdadeiro é aquilo que torna belas todas as coisas belas.
Portanto, não se chega a uma conclusão: é uma aporia.
Mas eu prefiro concordar com outro diálogo.
E quando Platão descreve, no Fedro, a carruagem alada da alma, guiada por dois cavalos — um nobre e outro indômito —, ele mostra como a visão de uma bela mulher pode despertar algo mais alto: o anseio de alçar voo em direção ao ideal, de reencontrar a beleza original que, um dia, vimos antes de nascer.
A beleza física é o estopim, mas não o destino.
É a faísca sensorial que reacende o desejo do eterno.
Há algumas belezas que são indiscutíveis na memória — que se gravam como uma centelha eterna.
Todos reconhecemos um cavalo belo, uma mulher bela, um belo texto ou mesmo um gesto belo — como o do marido — ou um belo texto como este.
É o amor por esse tipo de beleza que Stendhal chamaria de amor-gosto.
E, ao contrário do que se pensa, o oposto da beleza não é a feiura — é a vulgaridade.
E quando falo disso, reconheço o risco: pode descambar para a afirmação de que tudo são aparências, e que não há verdades absolutas.
Mas é isso mesmo — tudo são aparências.
A beleza é aparência, é subjetiva, depende das percepções.
Nós vivemos de aparências.
As pessoas vivem de aparências.
Na época das redes sociais, na sociedade do espetáculo, elas escolhem o que querem mostrar.
Mas a maioria do que mostram não é o belo, nem a feiura — é justamente a vulgaridade.
E é desse gosto que eu tenho predileção.
Eu preciso da beleza e do amor para viver — para me inspirar.
Uma beleza que me inspire, que me conduza para frente, mesmo que tenha dono, mesmo que não possa ser reivindicada por mim.
Mas a beleza física é um bem perdurável, e não podemos contar com ela para sempre.
Percebi que meu sentimento pela pessoa do passado se esvaiu justamente pela falta de beleza — tanto física quanto espiritual, estética e de gosto.
Isso fez minha força de querer alcançá-la diminuir.
E eu tenho que encontrá-la em outro lugar — mais próximo, talvez na minha própria rua — mesmo que já tem dono.
Esse tipo de empecilho é, porém, uma grande fonte de inspiração para o amor-gosto.
As mulheres se ressentem dizendo que os homens ligam muito para a beleza.
Ora, a mulher não quer cuidar da própria beleza, não quer cuidar da forma física, não quer cuidar do espírito, não quer ter bom gosto, é incapaz de falar algo interessante — e ainda exige ser amada, encontrar um bom partido e ser reconhecida como bela.
É por isso que muitos recorrem a aditivos da alma — álcool e entorpecentes — para ver nelas qualidades que não existem.
Mas isso é falsear a realidade.
Assim que nos libertamos, recuperamos nossa capacidade de avaliação sadia — nossa capacidade de julgar a beleza.
Buscamos esse amor-gosto em outro lugar, mais próximo, com outro tipo de dificuldade, mas que oferece o estímulo de alguém real — não de um fantasma que só existia na imaginação.
Às vezes usamos a imagem para atribuir qualidades que não existem, para idealizá-la.
Foi o que eu fiz ao confundir a Helena da periferia com a mulher de Agamêmnon, sua suposta irmã.
Mas ontem, sondando melhor nas redes sociais, descobri que não podem ser a mesma pessoa — talvez tenham somente algum parentesco — e olhe lá…
Ao mesmo tempo, isso me fez perder todo o interesse na irmã e aumentar meu interesse na Helena original — a verdadeira.
Mas o fato de eu nem distinguir o rosto dela demonstra que é só uma vaidade minha, uma veleidade estética de alguém muito suscetível à beleza, que precisa dela, que precisa fruí-la para viver — e é capaz de confundir esse sentimento, essa motivação, até com o amor.
Bom, para Stendhal, isso é amor.
Não amor-paixão, mas amor-gosto.
E, com todo respeito aos mandamentos divinos, dentro das minhas possibilidades e dos limites éticos, farei o impossível para realizá-lo.
O que está a meu favor é a diferença: ela está com o Menelau da periferia desde o colégio — e não se ama para sempre alguém com quem se levou lancheira para a escola.
Eu falo por experiência.
Eles são muito familiares.
E o familiar, por mais confortável que seja, perde o encanto do desconhecido.
Assim como Menelau deu mole, eu só preciso da oportunidade, do tempo e do lugar.
O resto é encantamento de Afrodite, que nasceu comigo — a inspiração dos poetas do amor, Ovídio, que me protege e me conduz nessa jornada.
Ela só precisa ser esse deleite:
tomar ar fresco, sair do castelo — que não é de vidro, muito menos encantado como nos contos de fadas.