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DAVE LE DAVE
SIM, ELE MESMO
Textos


“AINDA” ESCREVEREI MEU MELHOR TEXTO. E pode ser esse.

 



DAVELEDAVE.RECANTODASLETRAS.COM.BR

 


 

A SOCIEDADE SEM PALAVRAS

Em Her, Spike Jonze nos conta a história de um escritor que escreve por encomenda.

Num mundo distópico, uma sociedade ágrafa, não é à toa que as relações se tornem tão vazias, tão líquidas — que as pessoas precisem encomendar palavras porque desaprenderam a dizê-las.

 

Os mundos distópicos de Alphaville, de Godard; de 1984; e de Admirável Mundo Novo mostram que, conforme as palavras vão desaparecendo, o ser humano desaprende a senti-las.

 

“Há uma palavra que há tempos eu não pronuncio e eu achava tão bonita… como é mesmo o nome? Ah, chamava-se amor.”

 

Numa sociedade que desaprendeu a palavra amor, esvaiu-se junto com o vocábulo também a capacidade do sentimento.

 


 

O PAPEL DO ESCRITOR

Mesmo convivendo com a mulher na intimidade — talvez pela própria proximidade — o cônjuge não consegue pensar em nada especial para lhe dizer, talvez porque nada de especial lhe ocorra.

 

E é aí que entra o escritor.

O escritor existe para trazer à tona o especial do cotidiano com seu olhar atento.

 

É como o narrador perguntando ao repórter à beira do campo:

“O que só você viu?”

 

O escritor escreve o que só o seu olhar preciso percebeu no mundo de banalidade do cotidiano.

 

É por isso que Theodore, numa carta encomendada, percebeu o dente torto da esposa de um de seus clientes — e transformou essa imperfeição em poesia.

 


 

O DOM DE TORNAR VISÍVEL

É para isso que o escritor serve: tornar visível, palpável, o invisível.

Fazer caber o infinito num papel, num parágrafo, numa frase.

 

Godard tem um exemplo muito bonito — e poético, como costumam ser todos os seus — ao ser perguntado numa entrevista o que ele diria a um extraterrestre sobre o que é o cinema.

 

Ele responde:

 

“O cinema é uma invenção fantástica que usa a câmera, um aparato espacial que o cineasta utiliza para capturar a realidade através da sua imaginação.”

 

Por mais bonito que seja o exemplo, afirmar isso é como dizer que a literatura existe por causa da caneta e do papel que a permitem existir.

 


 

O ESCRIBA

Eu gosto de dizer que sou um humilde escriba.

Porque um escriba é só alguém que escreve.

Alguém que copia.

 

E é isso que sou: apenas um copiador.

Copiador de outros, copiador de outros estilos, de outras artes.

 

O texto não é pastel.

Ele não se escreve em trinta minutos — no momento da escrita.

Ele se escreve em trinta anos.

Em trinta mil anos de história da humanidade.

Em trinta bilhões de anos de evolução.

E até em outras vidas que vieram antes de nós, fruto da genética.

 

O momento da escrita é apenas o último, o derradeiro — o instante da realização, da organização, o momento em que a ideia toma forma.

Como um demiurgo.

Como Deus dando forma ao mundo.

O momento em que nos assemelhamos a Ele.

 


 

O MELHOR TEXTO

E Theodore diz que há dias em que ele se sente como seu escritor predileto.

E maldito aquele que escreve — não, que é escritor — e nunca teve esse momento divino de também se achar o seu melhor.

 

Eu me sinto assim todos os dias.

Entre quase dois mil textos, alguns realmente me dão muito orgulho.

Outros também — porque foi através deles que alcancei a evolução necessária para chegar aos bons.

 

Mas o que mais me satisfaz é saber que meu melhor texto ainda será escrito.

Talvez amanhã.

Talvez depois.

Talvez seja este mesmo.

 

É um grande prazer — e ao mesmo tempo um grande desafio — concorrer consigo mesmo.

Ser seu escritor predileto a cada dia.

 

Pelo menos até amanhã,

Até eu escrever o próximo.

 

ESCRITOR DAVE LE DAVE II (OFICIAL)
Enviado por ESCRITOR DAVE LE DAVE II (OFICIAL) em 09/10/2025
Alterado em 09/10/2025
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