
Em Her, Spike Jonze nos conta a história de um escritor que escreve por encomenda.
Num mundo distópico, uma sociedade ágrafa, não é à toa que as relações se tornem tão vazias, tão líquidas — que as pessoas precisem encomendar palavras porque desaprenderam a dizê-las.
Os mundos distópicos de Alphaville, de Godard; de 1984; e de Admirável Mundo Novo mostram que, conforme as palavras vão desaparecendo, o ser humano desaprende a senti-las.
“Há uma palavra que há tempos eu não pronuncio e eu achava tão bonita… como é mesmo o nome? Ah, chamava-se amor.”
Numa sociedade que desaprendeu a palavra amor, esvaiu-se junto com o vocábulo também a capacidade do sentimento.
Mesmo convivendo com a mulher na intimidade — talvez pela própria proximidade — o cônjuge não consegue pensar em nada especial para lhe dizer, talvez porque nada de especial lhe ocorra.
E é aí que entra o escritor.
O escritor existe para trazer à tona o especial do cotidiano com seu olhar atento.
É como o narrador perguntando ao repórter à beira do campo:
“O que só você viu?”
O escritor escreve o que só o seu olhar preciso percebeu no mundo de banalidade do cotidiano.
É por isso que Theodore, numa carta encomendada, percebeu o dente torto da esposa de um de seus clientes — e transformou essa imperfeição em poesia.
É para isso que o escritor serve: tornar visível, palpável, o invisível.
Fazer caber o infinito num papel, num parágrafo, numa frase.
Godard tem um exemplo muito bonito — e poético, como costumam ser todos os seus — ao ser perguntado numa entrevista o que ele diria a um extraterrestre sobre o que é o cinema.
Ele responde:
“O cinema é uma invenção fantástica que usa a câmera, um aparato espacial que o cineasta utiliza para capturar a realidade através da sua imaginação.”
Por mais bonito que seja o exemplo, afirmar isso é como dizer que a literatura existe por causa da caneta e do papel que a permitem existir.
Eu gosto de dizer que sou um humilde escriba.
Porque um escriba é só alguém que escreve.
Alguém que copia.
E é isso que sou: apenas um copiador.
Copiador de outros, copiador de outros estilos, de outras artes.
O texto não é pastel.
Ele não se escreve em trinta minutos — no momento da escrita.
Ele se escreve em trinta anos.
Em trinta mil anos de história da humanidade.
Em trinta bilhões de anos de evolução.
E até em outras vidas que vieram antes de nós, fruto da genética.
O momento da escrita é apenas o último, o derradeiro — o instante da realização, da organização, o momento em que a ideia toma forma.
Como um demiurgo.
Como Deus dando forma ao mundo.
O momento em que nos assemelhamos a Ele.
E Theodore diz que há dias em que ele se sente como seu escritor predileto.
E maldito aquele que escreve — não, que é escritor — e nunca teve esse momento divino de também se achar o seu melhor.
Eu me sinto assim todos os dias.
Entre quase dois mil textos, alguns realmente me dão muito orgulho.
Outros também — porque foi através deles que alcancei a evolução necessária para chegar aos bons.
Mas o que mais me satisfaz é saber que meu melhor texto ainda será escrito.
Talvez amanhã.
Talvez depois.
Talvez seja este mesmo.
É um grande prazer — e ao mesmo tempo um grande desafio — concorrer consigo mesmo.
Ser seu escritor predileto a cada dia.
Pelo menos até amanhã,
Até eu escrever o próximo.