
Cada vez que vejo um filme de Buster Keaton, começo a compreender — ou talvez apenas a sentir — o que Nietzsche quis dizer com o eterno retorno: viver cada momento como se ele fosse se repetir infinitamente.
Porque eu poderia revivê-lo irrepetidamente.
E, pra mim, essa definição é o mais próximo que existe de estar no paraíso.
Eu vivo minha vida numa repetição perfeita, em que cada detalhe é novidade — como uma criança.
Daí a metáfora das metamorfoses do espírito de Zaratustra: o camelo que carrega, o leão que rompe e a criança que cria.
Assisti ao curta A Cabra, exatamente trinta minutos de Buster Keaton, enquanto fazia esteira.
Para as pessoas, o cardio é um martírio.
E é um martírio porque elas o vivem como tal.
Ora, o cardio é o momento do esquecimento de si — de aprendizado, de ócio criativo, de escrita ativa, de ideias.
É quando o corpo se move por inércia e a mente, livre, começa a pensar sem pensar.
Ali, entre o som do passo e o ritmo da respiração, o pensamento dança.
Acho que qualquer curso ligado à arte ou à criatividade deveria ter um semestre dedicado ao cinema mudo — e outro, mais especificamente, à obra de Buster Keaton.
Porque compreender como esses artistas, com tão poucos recursos técnicos e narrativos, encontravam soluções criativas para contar histórias que atravessam gerações é entender a própria essência da invenção humana.
Eles faziam rir, pensar e sentir com o silêncio.
Faziam poesia com gravidade, filosofia com tropeços, drama com acrobacias.
São menos criativos apenas que o pessoal responsável por traduzir o título para o português — e resolveram chamá-lo literalmente de The Goat, de A Cabra.
O filme começa com Keaton em uma fila de prisioneiros, achando que está esperando por comida, mas, na verdade, é uma fila de fichamento criminal.
Por engano, sua foto é tirada com a placa de um assassino chamado Dead Shot Dan.
A partir desse equívoco, o rosto inocente de Keaton passa a estampar todos os cartazes de “Procurado”.
De repente, ele se torna o criminoso mais procurado da cidade — sem jamais ter cometido crime algum.
Eis o absurdo condensado em trinta minutos: o homem certo vivendo a vida errada, ou o homem errado condenado por existir no tempo certo.
O resto é perseguição e poesia.
Keaton corre por ruas, escadas e trens; engana a polícia com gestos mínimos; encontra o amor por acaso — e, tragicamente, o amor tem o rosto da filha do chefe de polícia.
No final, depois de escapar de tudo, ele é capturado por nada.
Preso pela própria inocência.
Um círculo perfeito — um eterno retorno da injustiça.
E talvez seja essa a piada secreta de The Goat: rir da desgraça com a mesma seriedade de quem filosofa sobre ela.
Mas ele e a garota ficam juntos, adquirindo, numa loja de móveis cuja fachada exibia um anúncio de marketing genial, que só poderia ter sido escrito por um gênio como Keaton: “Apenas traga a mulher que a gente se encarrega da sua mobília.” E eles entram na loja, e os créditos finais sobem. The end.
O título original, The Goat, significa “bode expiatório”.
Mas talvez haja um acerto inconsciente aí.
Porque “a cabra”, ou melhor, o bode expiatório, é essa figura absurda: inocente e culpada ao mesmo tempo, perseguida pelo erro do outro, errante sem saber o motivo, correndo sem destino.
E Keaton é isso: o homem que apanha do acaso e, ainda assim, não reclama.
O rosto que não ri, mas nos faz rir.
A carne que cai e se levanta.
O corpo que resiste, enquanto o mundo se desmonta.
Ele é o eterno retorno da queda.
E talvez seja por isso que, ao vê-lo, eu também sinto que a vida é maravilhosa — e que não há céu capaz de ser melhor que ela.
Enquanto Chaplin fazia o público chorar, Keaton fazia o público pensar.
Ele não buscava piedade — buscava lucidez.
O riso que vem não é o da alegria, mas o da compreensão:
“Sim, é isso mesmo. A vida é esse erro eterno que a gente insiste em repetir.”
E, no fundo, é por isso que eu o vejo na esteira.
Porque correr sem chegar é o retrato mais fiel da condição humana.