
Eu devo ser péssimo fisionomista mesmo — ou apenas muito louco.
A academia fica em cima de um mercado e, ao entrar nela agora, eu vi quem?
Mas quem você acha que eu vi reluzente, usando sua túnica dourada e um spotlight divino refletindo no rosto?
Sim, ela mesma: a Helena da periferia, casada com o Menelau do subúrbio.
Mas ora — o império de Menelau é ser dono do mercado concorrente, justamente onde Helena estava comprando?
Ou realmente a livre concorrência anda muito boa e sadia, ou então é sinal de que os gregos, enfim, fizeram as pazes com os troianos.
Subo à academia, escrevo o texto anterior, passo pela indignidade de beber água do bebedouro — já que esqueci minha garrafinha — e quem vejo de novo?
A princesa Helena, agora vestida adequadamente para treinar.
Mas estou quase certo de que se trata de uma sósia.
Ou uma mulher duplicada. Ou uma irmã.
A do caixa, lá embaixo, em trajes civis, parecia outra pessoa.
Nela, qualquer andrajo parecia ter sido costurado por Afrodite para o deleite de quem olha.
Mas na academia… era uma figura totalmente distinta.
Sei lá.
Algo em prol da minha hipótese é que, pelo que me parece, ela leva ou busca o filho na escola nesse horário. Pode ser que aproveite também para treinar — quem sabe.
O fato inconteste é que essa Helena — ou sua sósia — fez algo que não costumava.
Se antes era recém egressa na academia, agora parece motivada.
Foi ontem e hoje de novo.
Algo que a antiga Helena jamais fez.
Ou então é sinal de que ela se emancipou de Menelau pelo poder divino das minhas palavras, guardadas no repositório da sabedoria que, a essa altura, você já deveria saber de cor, fazer parte da sua rotina e visitar todo dia, pela manhã e ao longo do dia, para ver se há novidades.
A saber:
daveledave.recantodasletras.com.br
E eu sou muito ousado. Eu escrevo o ponto do final desse texto enquanto olho pra ela, como um voyeur literário.
E, vendo melhor, essa é mais comprida, mais voluptuosa, mais exibida — não pode ser a pudica e recatada Helena de antigamente.
Ou talvez seja a Helena de um metaverso.
Mas só aceito a condição de ser a original, para não perder a inventividade e a força da minha imaginação.
Tudo pelo bem da minha arte, claro.