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DAVE LE DAVE
SIM, ELE MESMO
Textos


EU QUERIA MESMO ERA LER O DIA INTEIRO

 



DAVELEDAVE.RECANTODASLETRAS.COM.BR
 



Eu não quero virar aquele meme do Edílson Capetinha que disse que, na fase boa, ele jogou mais que o Cristiano Ronaldo.

Mas, na fase boa, eu lia no máximo uns setenta livros por ano.

 

Considerando a média geral do brasileiro — que é esse número multiplicado por zero — até que está bom.

 


 

O TRABALHO E O PRAZER

Tampouco sou como Foucault, cujo apelido era “raposa”.

Roberto Machado, que foi seu aluno e pupilo, chegou a frequentar sua residência uma vez e indagou o francês se ele não se aborrecia em ficar enfurnado no quarto, lendo um monte de papel empoeirado, como um bibliómano compulsivo, até quatro livros num dia.

 

Foucault respondeu, totalmente irritado, que aquela era sua atividade, seu trabalho e prazer.

 


 

O CONHECIMENTO COMO FIM

Também me surpreende Jesse de Souza, que se dedicava a estudar madrugada adentro dos dezoito aos trinta anos, com um sistema que ele próprio criou — porque, para ele, o conhecimento e a educação eram o caminho para uma vida melhor, o reconhecimento.

Por isso, propôs-se a estudar as grandes obras do pensamento, mas também de literatura, cinema etc.

 

Eu não consigo entender essa instrumentalização do conhecimento sem ser o conhecimento em si mesmo.

O prazer da literatura e do cinema como atividade em si — não em algo exterior.

 

É por isso que eu não tenho método.

Meu único método é não ter método algum, talvez guiado pelo método da loucura do príncipe Hamlet.

 


 

OS HOMENS PARCIAIS

Nas palavras de Bataille, o verdadeiro conhecimento é como uma vela que nunca apaga, o fogo que jamais se extingue.

Por isso, ele era avesso — e nos causa aversão — a quem sabe muito de uma única coisa: o que Bataille chamava de “os homens parciais”, em comparação com “os homens completos”.

 

Ora, eu sei que não sou o mais bonito, o mais inteligente, o mais rico, o mais elegante, o que escreve melhor, o que sabe mais sobre literatura, cinema, poesia, arte, games, conhecimentos gerais, entretenimento, etc.

 

Eu não ganho o Oscar em nenhuma dessas categorias.

Mas ganho o Oscar pelo conjunto da obra — como os maiores: Kubrick, Woody Allen, Godard…

 


 

ENTRE A LEITURA E O CORPO

Veja — é claro que muitos desses setenta livros eram peças que se leem de uma vez, igual a um filme.

É assim que se lê Racine, Molière, Shakespeare — cuja obra eu li praticamente inteira, de dramas a tragédias históricas, de farsas a comédias.

Mas o poeta, esse eu ignoro totalmente.

 

Uma revelação: eu não gosto e não entendo muito de poesia.

Sou só um diletante.

Admiro os artistas da palavra, e por passar boa parte da vida lendo, é normal que eu também arrisque meus versos.

 

Porém, o homem parcial é o mesmo que o homem morno.

Há algo de cômico nas academias de musculação: homens-músculo que hipertrofiam o corpo e atrofiam o cérebro — gritando igual macacos.

 

É claro que a vida é uma aposta, e cada um faz com suas fichas o que bem quiser.

Mas tem um menino aqui que entrega compras no supermercado — atividade digna, claro —, quer dizer, já pega peso o dia inteiro.

E talvez, de um tempo pra cá, baseado em mim, começou a ir duas vezes seguidas à academia: manhã e tarde.

 

Dá pra ver que ele não tem genética pra ser atleta, ou sei lá…

Mas pelo que vi — ele fazendo cardio, resmungando e batendo no celular — aquilo pra ele era uma tortura.

Então pra quê?

 

As apostas são sempre na melhor versão, no futuro, nos melhores resultados.

 


 

MOLHAR A PALAVRA

Quando o que eu queria mesmo é estar lendo em casa, mas estou aqui escrevendo este texto na esteira, com sede porque esqueci minha garrafa de água — e sem ela eu não consigo, como diziam os antigos, “molhar a palavra” — talvez isso se reflita na minha linguagem mais seca deste texto.

 

Mas estou aproveitando que, no futuro, isso irá me trazer mais vantagens.

A rotina militar faz parte do tratamento.

O reflexo do meu corpo é o reflexo dos meus hábitos.

 

E, bom…

Se eu tirasse a roupa aqui agora e começasse a recitar Shakespeare — algo que eu poderia fazer — seria uma cena bonita de se ver, e poderia até viralizar, sim.

 

Mas apenas pelo corpo e pelo inusitado.

Diriam os comentários dos homens parciais da internet:

“O que estragou foram essas palavras difíceis que ele pronunciou.”

ESCRITOR DAVE LE DAVE II (OFICIAL)
Enviado por ESCRITOR DAVE LE DAVE II (OFICIAL) em 07/10/2025
Alterado em 07/10/2025
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