
Gilberto Freyre é uma Poliana do pensamento: um pensador declaradamente conservador, mas cuja importância foi sobeja em combater o racismo científico em voga no Brasil — aquele que queria transformar o racismo em uma matéria exata, com apoio da elite, das faculdades de Medicina, de Direito, e dos prestigiados círculos intelectuais do Sudeste, especialmente em São Paulo, e também do Norte, em Belém do Pará.
Então vem Casa-Grande & Senzala, que não só é uma grande obra do ponto de vista acadêmico e ensaístico, como também literário — um livro agradabilíssimo de ler, elogiado por artistas das palavras da envergadura de Guimarães Rosa.
O grande opositor de Freyre era alguém que veio da pobreza e faria uma sociologia mais científica, com teses contrárias ao otimismo à la Cândido de Freyre sobre a identidade brasileira: Florestan Fernandes.
A visão de Freyre é que o brasileiro é um povo miscigenado entre índios, negros e portugueses. Que branco mesmo, no Brasil, não há.
E que essa união não foi conflituosa — ou foi, mas apenas no sentido dialético — e que desse conflito nasceu um povo rico em cultura: o povo brasileiro.
De certa forma, essa visão de mundo proposta por Freyre, que projeta um ideal sobre a realidade, mostra como funcionam os filósofos e intelectuais: eles criam uma obra e tentam subverter a realidade, ou fazer de tudo para que a realidade caiba dentro da sua teoria.
Mesmo Sérgio Buarque de Holanda, que ora aponta essa ironia da intelligentsia brasileira, ora diz que no Brasil o ódio ao negro e ao índio não era racial, mas ao trabalho manual, aqueles que o executava.
Porém, ao mesmo tempo, afirma que quem colonizou o país não tinha muito apego aos valores cristãos — e que, no Brasil, a característica de que o trabalho enobrece foi diluída: o próprio trabalho intelectual é relegado a segundo plano na atividade do senhor de engenho.
E até hoje dizem que o povo primordial era meio indolente, e que os que prosperaram de fato foram os imigrantes trabalhadores — italianos, alemães, japoneses, sírio-libaneses, judeus, etc.
Então, a todo momento, a realidade contraria o intelectual.
Por isso eu gosto de dizer que a verdade objetiva não existe.
A verdade é apenas uma questão de estética.
A intenção do intelectual é mostrar sua potência de agir — e, através do pensamento, fazer arte.
Ora, Gilberto Freyre é capaz de escrever que o sadismo do homem branco encontra guarida no masoquismo da mulher negra…
Outra hora diz que, apesar de tudo, a miscigenação foi positiva.
Eu prefiro acreditar no contrário: que os opostos, quando se atraem, formam uma paleta de cores mais bonita.
Por exemplo, em Dogville, de Lars von Trier, temos o oposto — o sadismo do negro tendo guarida no masoquismo que deseja a força do negro.
Acho que é nesse limiar, nesse equilíbrio, que Freyre vê a beleza da miscigenação no povo brasileiro — em vez do conflito.
Quando o brasileiro chega aos Estados Unidos ou à Europa — essa Europa dinamarquesa e escandinava de Lars von Trier — ele percebe que não é “brasileiro” porra nenhuma.
Ele é latino.
Nas Américas, a colonização foi feita de forma diferente.
A espanhola, em relação à portuguesa, adotou outro espírito.
Os portugueses eram saqueadores — como diz Buarque — que, em vez de fazer guerra e extinguir o povo nativo, como fizeram os espanhóis, resolveram se apropriar dos primitivos, usar seu conhecimento em prol do enriquecimento.
Esse espírito predatório continua sendo o símbolo da nossa elite até hoje — a mesma que Jessé de Souza chama de elite de rapina.
Uma elite que prefere se apropriar de tudo, em vez de ladrilhar o país, arquitetá-lo, moldá-lo como um demiurgo.
Poderia fazer prosperar uma classe média mais rica financeiramente — e com isso ela própria prosperaria.
Mas prefere o prazer da distinção, do privilégio, de não ter o azar de encontrar o pobre no aeroporto.
Prefere os lugares de distinção simbólica da elite — e, para isso, compra a intelligentsia universitária.
A USP foi fundada para dar legitimidade ao discurso da elite, e o vestibular, sob o discurso da meritocracia, é o instrumento que separa quem teve oportunidade, capital financeiro e herança cultural — o privilégio de uma família que o dinheiro e o sobrenome proporcionam.
Enquanto isso, o pobre é expulso da disputa, e ainda acha tudo natural — porque acredita que o rico “estudou mais”, “mereceu”.
Totalmente alienado, sem perceber que foi privado das condições materiais da competição.
No último texto, falei sobre as crianças.
As mães brasileiras são totalmente fruto das indígenas.
Não existe mãe brasileira branca.
O jeito como a indígena amaciava as palavras para tratar com o senhor do engenho, o onomatopeísmo com que fala com a criança, esse amor visceral ao rebento — tudo isso formou o arquétipo da maternidade nacional.
As mães brasileiras são negras e indígenas, não brancas.
As que são brancas terceirizam às empregadas negras o trabalho árduo de criar uma criança.
Lembro de uma médica pediatra com quem trabalhei — tem três filhos e não cuidou de nenhum deles.
As que têm vocação para ser mãe guardam em si, bem escondido, os genes da mulher primordial — a matriarcal indígena e a negra.