
Sou um péssimo fisionomista, tenho dificuldade em identificar pessoas pelo rosto. Dizem que até bebês reconhecem um rosto bonito e repelem a feiura.
Ontem eu vi a “Helena” do meu bairro treinando — coincidência ou não, cravado às 5h30, horário que, igual aos ônibus londrinos, invariavelmente, eu treino na parte da tarde também.
Bom, pelo menos eu acho que era ela, pois estava meio envelhecida. Se não era, era sua irmã ou parente com certeza, porque as semelhanças eram muitas e não pode ser coincidência. O fato dela chegar, por exemplo, no mesmo horário que eu.
Ou de fato minha escrita tem poder e é transmitida no mundo todo igual ao show do Truman… ou, mais com os pés no chão, as mulheres se comunicam entre si. Pela expressão dela, claramente voltava após um longo período e iria acertar a mensalidade depois.
Como chegamos quase concomitantemente, era impossível não reparar que ela estava mais preocupada em olhar para o lado (para o meu lado) do que acertar a mensalidade da academia que, há tempos, ela não frequentava, mas agora coincidentemente foi no mesmo horário que este humilde escriba.
E seria muita pretensão achar que ela estava mais interessada em olhar para mim do que propriamente em treinar?
A minha dúvida maior era se era a Helena ou sua irmã, mas que era a própria ou tinha parentesco, isso é claro. E também que dificilmente seria proposital a coincidência de horários.
Ela costumava treinar, pelo que me lembro, às segundas, quartas e sextas, e ontem foi segunda. Mas ela treinava às 10h30 — opa, coincidentemente, o horário que eu treinava antigamente pela manhã.
Fato é que ela andou ausente. Eu acho que pelos compromissos de dona de casa — principalmente de mãe, mais do que de esposa — inferindo que era ela mesma, claro, e não sua irmã, ou prima. Ou sei lá…
Mas fato é que ela estava envelhecida. É que a banalidade do cotidiano envelhece mesmo.
Quando você tem filho, sua vida não passa mais a ser sua. A sua principal vida não é mais a sua, mas a do ser que você colocou no mundo. Pelo menos deveria ser assim.
A sua vida, a partir de então, passa a ser em função de propiciar — e até projetar — seus sonhos irrealizados ironicamente no próprio rebento que os tirou de você…
O fato de eu não ter filhos, convenhamos, é mais sorte do que juízo. Nesse sentido, não posso dar lição de moral.
E também por nunca ter namorado nem tido relacionamento sério. Acho que sexo sem camisinha, essa confiança se dá mais em relacionamentos estáveis com a mesma pessoa. Nesse sentido eu sempre fui prevenido e, quando fiz besteira, contei com o tempo e a sorte… mas, mesmo assim, em alguns lugares eu prefiro não voltar, não…
Nem precisa dizer: se eu tivesse filho seria impossível bancar meu modo de vida atual. Eu seria outro, totalmente diminuído pelo meu filho.
De certa forma é como na mitologia: os filhos destronam os pais — Cronos destrona os titãs, Zeus destrona os titãs — numa metáfora de que os filhos roubam a energia e sucedem seus pais.
Por isso, ter filho, colocar outro ser no mundo, deveria ser a decisão mais importante que alguém fosse tomar na vida.
Ah, mas como eu queria reencontrar a bela Helena — ou, na verdade, a mulher de Agamêmnon que era sua irmã e casada com o “chifrudo” do Menelau. Mas, como me identifico mais com Páris, eu queria mesmo a Helena e ficar 10 anos mais com ela — até assumiria o filho do rei dos gregos.
Porém, ciumenta que for me ler, sem nunca me esquecer que meu lugar verdadeiro é com Penélope, igual Ulisses, no lado oposto da guerra.
E quem sabe ter um Telêmaco que eu terei o bom senso de batizar de outro nome. Só se for um cachorro.