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DAVE LE DAVE
SIM, ELE MESMO
Textos


Eu Queria Tomar a ÁGUA do ESQUECIMENTO da VIDA

 


 

DAVELEDAVE.RECANTODASLETRAS.COM.BR
 


 

E o pecado veio porque a mulher comeu da árvore do conhecimento.

Claro, não veio de Adão — porque, para Adão, bastava comer Eva. É totalmente compreensível: uma bela mulher e uma bela paisagem. Quem ligaria para o conhecimento nessas circunstâncias?

 

Para mim, é mais sedutora a ideia de Platão: as almas tomavam a água do esquecimento do conhecimento — justamente o oposto da árvore. E Platão dizia que alguns seres beberam demais dessa água, por isso nasceram tão burros, parvos, totalmente pândegos, praticamente afogados.

Outros, quase incolumes, apenas deram uma bebericada — e é por isso que conseguem pensar melhor.

 

Mas todas as verdades já estão dentro da alma; apenas esperam ser reveladas, através da descoberta, do diálogo que propunha Sócrates, ou pelo estudo, pela contemplação, pela lembrança.

 

Eu, no entanto, queria esquecer — para poder ter novamente a experiência do ineditismo da vida.

 

Imagina ver meus filmes prediletos como se fosse a primeira vez.

Ou reler meus livros, como se nunca os tivesse conhecido.

 

E se você pensou em sexo ou mulher enquanto lia isso, é porque foi um dos que tomou água do esquecimento demais.

 


 

O CINEMA TOTAL

Meu gosto cinematográfico foi muito moldado pela Cahiers du Cinéma, percebo isso hoje.

Ela é criticada por ser classicista — e, de fato, na lista dos 100 melhores filmes de todos os tempos, há apenas dois feitos depois da década de 2000: Cidade dos Sonhos e Fale com Ela.

 

E eu concordo inteiramente com essa lista.

Só mudaria talvez as posições — e incluiria apenas Amélie Poulain.

 

Para mim, esses três filmes do século representam o cinema total, o cinema artístico completo.

 

Ainda falando da Cahiers du Cinéma, Godard — que antes de ser cineasta foi crítico cinematográfico dessa revista —, além de ser um dos maiores diretores, dava entrevistas magníficas, sempre poéticas, intensas e imprevisíveis, como seus filmes.

 

Mas, curiosamente, quando ele entrevistou Woody Allen para o curta Meet Woody Allen, foi patético: tentou ser protagonista no lugar do entrevistado, beirando o constrangimento.

 

Porém, em uma de suas grandes entrevistas, Godard disse algo que nunca esqueci:

 

“Não ligo para os críticos, por já ter sido um. Críticos são sempre seres ressentidos.”

 


 

O RESSENTIDO

E é exatamente assim que me sinto.

 

Por mais que eu escreva sobre arte, cultura, cinema — sempre me sinto menor diante das obras que admiro.

A crítica não me liberta; ela me prende.

Em vez de criar, eu analiso.

Em vez de sentir, eu explico.

 

E através da crítica, não consigo dar vazão à minha criatividade.

 


 

O FILME QUE NUNCA FAREI

Eu queria fazer um filme total.

 

Um filme que figurasse entre os 100 melhores da Cahiers du Cinéma.

Talvez tivessem que tirar Van Gogh de Maurice Pialat para colocar o meu — e nada poderiam fazer.

 

Mas falo isso como um bom ressentido…

O que posso fazer, no fim, é apenas desejar tomar a água do esquecimento.

 

Queria assistir Pickpocket, de Robert Bresson, como se fosse a primeira vez.

E depois escrever uma resenha sobre ele.

 

E talvez esse seja o máximo de arte a que eu possa chegar —

mas convenhamos: já é muita coisa, considerando a qualidade do filme.

 

 

ESCRITOR DAVE LE DAVE II (OFICIAL)
Enviado por ESCRITOR DAVE LE DAVE II (OFICIAL) em 06/10/2025
Alterado em 06/10/2025
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