
Nosso cérebro é muito hábil para dar desculpas ao próprio fracasso, justificar nossos erros, confundir causas materiais e, no lugar delas, colocar respostas fantasiosas.
Como se o sucesso não fosse resultado do preparo, do esforço, mas sim da predestinação de Deus — aquela velha proposta da ética protestante de Weber, em que o favor divino se manifesta no êxito material.
Ou, no sentido contrário, a doença seria o castigo.
Assim, o crente, o cristão, com seu mau gosto característico, pensa: “Por que vou cuidar do corpo, se, não importa o que eu faça, estou sujeito à vontade de Deus, à sua predestinação?” — embora afirmem acreditar no livre-arbítrio.
Então, aceitam a derrota da obesidade, da doença, da pobreza, como se fossem humilhações necessárias para o paraíso. Não vale a pena lutar, trabalhar, mudar a própria condição — porque nesta terra serão humilhados, e lá, no céu, exaltados.
Mas, ora, são os mesmos que falam mal de quem faz tatuagem.
E é assim que cuidam do corpo sagrado de Deus?
Alimentando-o com porcarias, com sedentarismo, com produtos ultraprocessados, entregando-se à obesidade?
Quem cuida mais do corpo de Deus — o tatuado trabalhador ou o preguiçoso obeso que se justifica com versículos?
Quem faz mais a vontade divina — o que cultiva a saúde, ou o que destrói o próprio corpo, templo do Espírito?
É simples: bastaria usar o livre-arbítrio para mudar e deixar de ser gordo — esse presente divino de decisão contra o mundo e o próprio destino, mudando a rota de nossa vida quando bem quisermos independentemente das circunstâncias e meio que estejamos inseridos. Quer dadiva maior que essa?
Você sabe que, no Inferno de Dante, cuja entrada traz a inscrição “aqui você deve deixar todas as esperanças”, no mesmo círculo dos que não creem estão os preguiçosos e indolentes.
Esses são perseguidos por insetos gigantes, condenados a se mover eternamente, já que em vida não se moveram.
O próprio poeta Virgílio, que recepciona Dante na descida ao inferno, pertence a essa categoria, mas porque não cria, não que fosse indolente.
E, ironicamente, os glutões — os que comem demais — estão em um círculo ainda mais baixo do que os fornicadores compulsivos.
Para Dante, é melhor COMER mulheres no sentido bíblico e metafórico do que comer comida em excesso.
Mas, ora, são os mesmos que falam mal de quem faz tatuagem…
E, no entanto, esse cristão “bondoso” ainda ousa dizer que quem pratica atividade física, come de forma saudável e cultiva o corpo está sendo vaidoso.
Vaidade? Ou devoção?
Como falar de uma alma saudável dentro de um corpo doente?
Embora, pra falar a verdade, “alma” seja apenas uma palavra — uma fábula antiga que muitos ainda repetem sem pensar.
Se você acha que eu mereço queimar no inferno por dizer isso, saiba que blasfemar contra Deus não é duvidar dele — é atentar contra a vida.
É não cultivar o corpo.
É desejar o mal.
É negar o ato de criação que o próprio Pai realiza.
Imitar Deus é criar, cultivar, evoluir — ainda que de forma material.
Esse seu pensamento, meu caro cristão, não é nada cristão.
Minha principal objeção ao cristianismo não é de crença, mas de estética e valores.
Acho que eles têm muito mau gosto.
Acho-os profundamente ignorantes.
Deus, para mim, é uma resposta vulgar — um atalho barato para explicar a complexidade do mundo.
O criacionismo é uma ofensa ao intelecto, uma tentativa infantil de traduzir o mistério com fórmulas de catecismo.
E o modo aberrante como muitos evangélicos se vestem me impede de levá-los a sério: a combinação das cores, o tamanho desproporcional dos ternos, as liturgias histriônicas.
Nesse sentido, o catolicismo dá de 7 a 1 nos evangélicos.
Ao menos no ritual, na estética, no símbolo — o catolicismo entende que o sagrado também é arte, que o corpo e o espírito se unem no gesto, na cor, na forma.
Os evangélicos, não.
Reduziram Deus a uma caricatura mal iluminada.