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DAVE LE DAVE
SIM, ELE MESMO
Textos


OS INTELECTOLÓIDES DO RECANTO DAS LETRAS

 


 

DAVELEDAVE.RECANTODASLETRAS.COM.BR

 



É preciso tomar cuidado: a síntese dialética hegeliana, entre opostos, entre duas ideias contrárias, nem sempre gera algo novo convertido em conhecimento.

 

Veja: se fizermos uma dialética entre os intelectolóides do Recanto — Edjar Vasconcelos e Argônio de Alexandria —, o que teremos? Um recantista grandiloquente que só fala das mesmas coisas.

 

Ambos são a personificação do intelectual brasileiro que Sérgio Buarque de Holanda descreve em Raízes do Brasil: aquele que valoriza, acima de tudo, os diplomas, o papel, o certificado.

 

Igual àquele sujeito mitômano que dizia ter 127 certificados, embora todos tenham sido falsificados no Paint, como sinal de legitimidade. Assim também é o Edjar: no seu currículo, diz ter estudado na PUC, no MIT, em Harvard, na primeira universidade de Marte; atravessou o espaço-tempo e estudou em diferentes dimensões, superando a própria matéria e a condição humana.

 

Fez até um curso de História da Religião com o próprio Deus.

Mas isso tudo, claro, no papel, embora não saiba nem gramática básica.

 

Eles são o símbolo do que Sérgio Buarque afirmava: os intelectuais brasileiros gostam de exibir o conhecimento como estética, como símbolo, como cosmética, não como bem em si.

É o mesmo que exemplifiquei com as formigas em Policarpo Quaresma, que mencionei em outro texto.

 

E quem não tem diplomas, pelo menos compra um óculos de tartaruga e um terno com ombreira, só para parecer intelectual e exibir a “cosmética do saber”.

No Brasil, o saber é ostentado.

 



O ÓCIO E O TRABALHO

A atividade intelectual também é vista como algo secundário, inútil — herança dos tempos de senhor de engenho, quando apenas ele tinha acesso aos livros.

Mas os livros, então, eram raros e serviam, claro, para ostentar.

 

Por isso, criou-se a visão de que quem lê é porque tem tempo sobrando.

E essa visão fez da leitura sinônimo de inutilidade.

E inutilidade, no Brasil, é coisa de vagabundo.

 

Mas, ao mesmo tempo em que o senhor de engenho tinha ódio ao trabalho manual do escravo, valorizava o trabalho de pensar.

O ócio do intelectual, porém, passou a ser visto também como coisa de vagabundo.

 

É herança da teoria das quatro causas de Aristóteles.

Segundo o filósofo, toda ação envolve quatro dimensões: a causa material (do que algo é feito), a causa formal (a estrutura que o define), a causa eficiente (quem executa o trabalho) e a causa final (o propósito que o orienta).

 

Mas o Brasil distorceu essa hierarquia simbólica: a causa eficiente — o agente que faz — foi rebaixada diante da causa final — o que ordena.

Dessa distorção nasce a crença de que quem pensa é superior a quem faz; de que o rei-filósofo é mais digno que o trabalhador.

 

Só que, contraditoriamente, o ócio aqui nunca foi contemplativo.

No Brasil, o ócio serve mais para coçar do que para pensar.

E quem pensa é visto como alguém que “não faz nada”.

Se você lê o dia inteiro, logo perguntam: “Mas você não fez nada o dia inteiro?”

 



O TRABALHO E O MITO

E ao mesmo tempo em que o trabalho manual é valorizada pela herança cristã, pois acredita-se que ele dignifica.

Vide a declaração de Bolsonaro de que “o brasileiro é preguiçoso”, enquanto os países do Eixo — Japão, Alemanha e Itália — seriam “trabalhadores e, portanto, mais dignos”.

 

Logo ele falando, né?

Um trabalhador nato.

Um pensador nato também, claro.

 



O FILÓSOFO DA ARMADURA

Mas então chegamos ao caso do “pensador” da armadura do Recanto — seu Gogo.

Ele é a própria personificação do intelectual brasileiro descrito por Buarque, aquele que procura um sistema único que dê conta de explicar tudo no mundo, todas as verdades, por pura preguiça mental.

 

Busca uma solução simples que explique tudo — porque assim não precisa mais pensar em nada.

 

Males do mundo: falta de crença em Deus.

 

Inflação: muitos impostos da esquerda.

 

Falta de emprego: impostos da esquerda e excesso de regulação do Estado.

 

Criminalidade: legalização das armas. Diminuição da menoridade penal pra 5 meses de idade com projeto de lei pra fetos, porque, afinal de contas, eles já são seres totalmente conscientes de suas ações e cidadãos formados

 

Moralidade: debate de gênero e escola sem partido.

 

É simples.

Só falta pôr em prática.

Nós é que somos os idiotas — ele é o JÊNIO.

 


 

O HUMANITISMO DO RECANTO

O grande exemplo é o Humanitismo de Quincas Borba — a teoria que ele explica a Brás Cubas, cheia de contradições, e que culmina na frase:

 

“O Humanitismo é o remate das coisas.

E eu que o inventei.

Sou o maior homem do mundo.”

 

É a pretensão do filósofo de inventar um sistema que explique tudo, somada à empáfia de quem acredita ser o dono da verdade.

 



A CULTURA DO DOM

E também mostra como, no Brasil, se exalta a figura do intelectual, e não suas ideias.

É a velha lógica: “o filme é uma porcaria, mas o cineasta é um gênio.”

 

Na cultura personalista brasileira, cultua-se o talento, não o esforço.

Acredita-se que o intelectual tem uma inteligência acima da média — como se fosse dom divino, e não fruto de horas de estudo e disciplina.

 

A criatividade é vista como dádiva, não como aprendizado.

Crê-se no mindset do elogio à inteligência — aquele criticado por Carol Dweck — e esquece-se do mindset do esforço.

 

O Brasil é a terra da dýnamis (a potência) sem enérgeia (a atualização).

Aqui, admira-se o que poderia ser — nunca o que foi feito ser.

Cultua-se o talento latente e despreza-se o trabalho que o realiza.

Ignora-se o movimento aristotélico da potência ao ato — a travessia do dom para o feito.

 



O GENIAL DE SEIS LIVROS

E no final, esse tipo de intelectual — como o seu Gogo — lê seis livros na vida e já se arvora no direito de ir ao debate público.

 

Sai dizendo, como Quincas Borba a Rubião, depois de criar sua teoria absurda:

 

“Mas você não tem capacidade de entender isso.

Vamos falar de amenidades — é melhor.”

 

ESCRITOR DAVE LE DAVE II (OFICIAL)
Enviado por ESCRITOR DAVE LE DAVE II (OFICIAL) em 06/10/2025
Alterado em 06/10/2025
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