
O adicto jacta-se em dizer que não precisa nem de dinheiro para sustentar seu vício. Para mim, esse sofre duas vezes: por ser viciado e por ser mau-caráter e não conseguir bancar seu próprio vício. Falam isso com orgulho e sinal de perspicácia na malandragem, apesar de ser verdade.
Fazendo um paralelo, eu fui convidado a visitar outras cidades, conhecer amigas recantistas e, CONHECÊ-LAS na acepção bíblica da palavra — if you know what I mean —, mas tive que recusar, por mais tentador que fosse, mesmo sendo praticamente gratuito e mesmo tendo lugar para ficar. Mas não seria a experiência ideal, nem seria muito cavalheiro da minha parte. Embora eu tivesse sido convidado com toda a sinceridade e generosidade, não me sentiria bem naquele momento. Em outro momento, poderia ser diferente.
O que vou escrever agora poderia se desdobrar em dois textos: um sobre como aprendo sobre autismo e outro sobre como é bom não sermos iguais. Vou tentar sintetizar tudo aqui, mas fará sentido.
Eu não gosto de ver o símbolo do autismo no carro da família do meu sobrinho, a não ser que isso facilite no estacionamento. Eu sei que é uma doença, mas não gosto de transformar doenças em “marca”, “estigma”, “destino”. Prefiro pensar em mudá-las, em curá-las.
Da mesma forma que meu sobrinho faz tratamento para que o autismo não atrapalhe seu desenvolvimento futuro, com uma rotina intensa: musicoterapia, fonoaudiologia, terapia ocupacional, muitas atividades — tudo para o futuro, uma aposta no futuro.
Eu, que tenho em meu DSM e CID o diagnóstico de dependência química, trabalho tanto quanto — ou mais — para curar ou redimir os sintomas: caminho, estudo, durmo, me alimento bem, faço privação de relacionamentos, sexo e até mesmo aceito ou recuso convites das minhas ex-amigas do Recanto, que talvez tenha sido o que nos tornou ex-amigas ou algo além de amigos. Aceito meu diagnóstico, mas, principalmente, trato dele e aposto no futuro, com humildade.
Meu amigo J. é muito diferente de mim. A intimidade de quase 20 anos permite muitas brincadeiras, como ele me chamar de “Zé Ninguém”. Embora sejamos parecidos em muita coisa — senão não seriamos amigos, graças a Deus —, a gente é diferente em muitos outros aspectos.
Quando ele brinca dizendo que percebe minha inferioridade em algumas coisas, eu rebato: que o nível cultural dele se limita a assistir Dragon Ball Z e dublado. Mas a gente se respeita. Ele é PhD pela USP, não é desses médicos formados em universidade do interior. Dá aula na UNIP de bioquímica. Se fizéssemos fusão igual em Dragon Ball Z — para usar um exemplo que ele gostaria— com o conhecimento acadêmico dele e o meu em geral, passaríamos em qualquer concurso, vestibular ou prova do mundo em um
dos primeiros lugares.
Mas somos diferentes. Enquanto eu caminho, ele trabalha e ganha dinheiro. Enquanto eu vou ao jogo do Palmeiras, ele dá aula. Enquanto eu compro o novo iPhone, ele economiza. Mas ele compra apartamento, vai casar e vai morar nos bairros mais nobres de São Paulo. Já está formado, mas não vive: só come porcaria, não dorme, deve estar com colesterol todo fudido. Eu não deveria falar isso, mas ele não transa com a mulher com quem vai casar. E eu, que sem ter namorada, faço mais sexo que ele.
Não existe certo e errado. Só há apostas. O único errado na história é você que me lê e acha que um de nós dois está certo.
Na vida não há certo e errado: só apostas.
Como a aposta de Pascal na crença em Deus — cujo erro seria a danação eterna no inferno — ou o erro do eterno retorno de Nietzsche — uma vida fugaz e repetitiva.
Mas a ex-recantista que mais sinto falta é aquela que, pelo tempo de dez anos, foi minha amiga. Assim como J., ela é diferente das outras por causa disso. Em dez anos, até mesmo Helena, que foi apaixonada por Paris e causou a guerra de Troia devido a um feitiço, já passou o efeito do amor. Mas meu sentimento por ela talvez não tenha passado; transformou-se em algo mais forte: uma eterna ternura desinteressada.
Para ela, mais do que para todos, vale a admiração sexual, a amizade erótica e meus elogios safadinhos e carinhosos.
Com muito amor,
DAVID