
Ótimo artifício o meu — falar das minhas paixões que são os esportes, o futebol americano e o futebol tradicional — e embuti-los no texto com uma manchete chamativa.
É como um prato saboroso que, pela aparência, chama a atenção, mas que tem coentro que o cozinheiro adicionou no meio e ninguém nem percebeu…
A elite está em todo lugar onde há sociedade.
Ela é a origem da desigualdade entre os homens.
Ela se manifesta por meio de símbolos, rituais e capitais: festas, formaturas, rituais de passagem — momentos em que se separam os “de elite” dos demais, os reles mortais.
Mas o Carnaval, como analisaria Roberto DaMatta, é a festa da liturgia ao contrário: onde a fantasia do pobre se consagra, igualando os desiguais.
É a única época do ano em que a Globeleza — na emissora de brancos, de atrizes alvas e galãs brancos — vira o padrão de beleza.
Já a fantasia de médica seria ridícula, a não ser que fosse curta, e entrasse no imaginário masculino, preferencialmente vestida por uma mulata.
A linguagem também é um rito de classe: separa os técnicos, como advogados e médicos, dos leigos.
Há símbolos sociais de status — roupas, carros, objetos — e há também quem use uniforme.
É fácil saber quem faz parte de uma elite apenas observando: o modo como se veste, se porta, sua posição social.
Ora, a polícia de “elite” não usa um uniforme distinto em relação à simples PM?
A elite se divide em espectros, em números, em contextos históricos, em campos sociais que muitas vezes não têm espaço.
Podem ser bilaterais ou unidimensionais.
Mas sempre estão lá, delimitando fronteiras invisíveis entre os que “sabem” e os que apenas “existem”.
No esporte, é ainda mais claro.
Nas Olimpíadas, a elite é quem quebra recordes — todo ano, todo ciclo.
Não dá pra comparar com quem está apenas aprendendo a nadar.
E a desigualdade social também existe na área do pensamento: entre quem sabe pensar, escrever, e quem não sabe.
Até mesmo aqui, no Recanto das Letras, isso é fácil de notar.
Ainda no esporte, fala-se da “espanholização” do futebol brasileiro atual — porque apenas Palmeiras e Flamengo dominam.
Mas, na Alemanha, há uma hegemonia ainda mais clara: apenas um time de elite, o Bayern.
Assim como ocorre com a elite financeira no Brasil — concentrada, hermética.
Já a elite política é dividida: esquerda e direita.
Mas a elite intelectual, essa é única — é só a esquerda.
No futebol americano, há cinco quarterbacks de elite:
Patrick Mahomes, Josh Allen, Joe Burrow (apesar do aspecto físico), Lamar Jackson e talvez o bom e velho Stafford.
Em outros tempos, foram três, dois, um só… ou nenhum.
Depende do tempo. Da época. Da história. Das relações de poder.
A elite é mutável, mas sempre existe.
Mas aqui, no Recanto, há uma elite sim.
Não chegou agora — sempre houve.
A elite dos escritores.
A elite dos leitores.
A elite dos comentaristas que não dizem nada.
E a elite dos asnos.
A qual dessas elites recantistas você pertence?