
NÃO PERMITAMOS QUE A INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL ESCREVA POR NÓS… A arte, como eu já disse, é exclusividade humana.
Se você usa auxílio de uma I.A., a arte começa quando o trabalho dela acaba.
No afã de terminar logo o texto, otimizar meu tempo, eu redijo minhas redações como se
fossem fluxos de pensamento e peço para a ferramenta corrigir depois. É totalmente natural.
E ainda assim eu tenho receio de ficar indolente. Assim como quem recorre sempre ao iFood por preguiça ou a alimentos hiperpalatáveis e, com isso, leva a uma inadaptação que o faz tornar-se obeso.
É preciso tomar cuidado para não cair na armadilha dessa suposta “evolução”.
O que me deixa com a consciência tranquila é estar sempre me atualizando escrevendo, sempre lendo e aprendendo. E o fato de que eu já escrevia muito antes dela existir.
Há pessoas que me acompanham, a Double N que não me deixa mentir, que deve até ter cartas minhas impressas sem auxílio da ferramenta — cartas em que sequer se deve perceber a diferença de hoje para antigamente, a não ser na identidade visual que é artística e no conteúdo que, como eu disse, fui eu mesmo quem estabeleceu.
E não a máquina.
Alguém acha que qualquer livro, escritor — por mais que seja Nobel de Literatura — ou jornal não tenha passado na mão de mil editores e revisores?
É isso que a correção é para mim: uma edição para que o texto saia impecável.
Porque, por mais que eu saiba gramática, pontuação e algumas regras que são invioláveis, outras são subjetivas. São apenas questões para tornar a leitura mais agradável.
E, às vezes, quem escreve não percebe. Sinais como travessões, separações de parágrafos, parênteses — que a máquina insere — auxiliam bastante.
Porém, ela jamais poderia escrever por mim. Jamais poderia reproduzir a naturalidade da escrita humana. Você acha que o pessoal é idiota? Todos percebem uma redação escrita por I.A.
No máximo que você pode pedir é um resumo do que quer saber, e então escrever com suas palavras, pedindo depois para ela corrigir com o mínimo de interferência possível.
Mas aí entra o trabalho artístico, estilístico, humano.
Um trabalho de avaliação, de bom gosto, de saber diferenciar o que tem fluidez do que não tem.
Há uma reflexão muito bela no livro Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda, que faz paralelo com a forte cultura do personalismo, do culto da pessoa, do “eu” que existe em nosso país.
Segundo ele, isso está relacionado ao ódio ao trabalho manual.
Sérgio Buarque de Holanda explica o ódio racial ao negro, e depois à classe operária: o preconceito dos mais ricos contra os mais pobres não ocorre apenas pela cor ou pelo dinheiro, mas pelo simples fato de serem eles os que fazem o trabalho manual, operário.
Eles não pensam, não assinam sua obra, não elaboram.
Há esse preconceito de espírito, como se somente quem acredita ter uma “alma pensante” fosse digno de mérito.
O brasileiro se rende às superpersonalidades — que são o Estado — para controlar os outros, porque não consegue governar a si mesmo, numa servidão voluntária que remete a Étienne de La Boétie.
Eu concordo parcialmente com essa reflexão de Buarque, porque ela pode descambar para teses eugenistas, deterministas e racistas, desconsiderando fatores ambientais.
Por exemplo: quando Bolsonaro afirma que japoneses, italianos e alemães eram trabalhadores diferentes dos brasileiros — justamente povos vindos dos países do Eixo nazista.
Mas eles também faziam trabalho operário. Contrariando, portanto, a análise de Buarque.
Fato é que, mesmo no trabalho manual, só o artista é capaz de assinar sua obra.
Assim como o diretor de cinema, o intelectual como Buarque de Holanda, o outro grande Buarque — o Chico — ou até mesmo o Dave Le Dave.
Não a inteligência artificial, não um robô. A não ser que o robô em questão seja o Daft Punk,