
Li uma declaração que muito me divertiu: Marilena dizendo que continuava odiando a classe média.
Eu admiro muito essa mulher. É uma pena que a extrema-direita beócia — e o pensamento típico dos parvos que enxergam tudo como 8 ou 80 — a detrate simplesmente pela posição política, desconsiderando sua genialidade como professora e como figura ilustre da universidade mais importante do país.
Com ela aprendi, cresci aprendendo a respeitá-la e admirá-la. Mas hoje, esses respeitos se perderam: tanto pelos mais velhos, quanto pela cultura, pelo ensino e até pela figura ilustre do professor.
Pior que eu nem sou tão velho para afirmar que “no meu tempo era melhor”. Não era. Já era uma porcaria.
Mas minha professora da primeira série, minha amada e musa Lilian, era tão linda como pessoa quanto em sua face. Moldou meu comportamento até hoje. Eu tinha a sorte de ser baixinho e o primeiro da fila, e podia pegar na mão dela todo dia. Eu me derretia em receber elogios pela tarefa, em ver a letra dela com beijos… ou essa parte dos beijos é invenção, sei lá, depois preciso conferir.

Aliás, Lilian também é o nome da mulher do Reinaldo Azevedo, que nunca ninguém viu a cara — igual à professora dos Peanuts. Reinaldo, que foi um detratador da professora na época da Jovem Pan, mas que, como Saulo, parece ter se convertido para o lado certo. Hoje é outro homem. Assim como Santo Agostinho.
A afirmação da professora sobre a classe média brasileira é representativa. Ela revela o pequeno burguês, aquele eleitor do Bolsonaro, que odeia pobre, que vai à manifestação pedindo anistia e golpe com aquele loiro golpista.
No Brasil, inaugura-se uma nova categoria de inveja e ressentimento. Normalmente, o proletário poderia olhar para o rico e querer tirar o que é dele. Mas aqui é o contrário: o rico olha para o benefício do pobre e sente raiva. Quer tirar. Chama-o de vagabundo. Desconsidera que aquilo, na verdade, representa sua subsistência.
A direita que Milei e Bolsonaro representam — e que o próprio Milei confirma em sua fala — elogia o fato de ele ter tirado benefícios dos pobres.
Essas pessoas se acham muito corajosas por tirar dos pobres, não é? Mas por que não tiram dos ricos? Por que não mexem nos direitos dos ricos?
Tirar direitos de pobres não é coragem. É covardia.
É essa classe média, burguesa, sem gosto, inculta, que eu — e a professora Marilena — odiamos.
E quando tentam chamá-la de feia, ela, com sua inteligência e sagacidade (que faltam a seus inimigos, e aqui também me identifico), responde:
“Meu bem, eu ser feia é um dado da natureza, da genética. Mas a sua burrice, sua ignorância, sua falta de educação são uma escolha. Uma decisão.” E contra fatos não há argumentos, eu completo, professora.