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DAVE LE DAVE
SIM, ELE MESMO
Textos


POR QUE SHERLOCK HOLMES E FREUD USAVAM COCAÍNA?

 



DAVELEDAVE.RECANTODASLETRAS.COM.BR

 



A CONDENAÇÃO DA LIBERDADE

Deleuze tem palavras duras contra usuários de drogas, pois entende que eles vitimizam sua condição, culpando não só a sociedade por sua doença, mas também transmitindo aos outros o mal exemplo de seus comportamentos.

 

Eu acho patético, de má-fé, essa tradição que vem dos Narcóticos Anônimos de dizer que “uma vez adicto, a pessoa é para sempre”. Já criam, de antemão, o álibi para o erro.

 

A condenação do homem é ser livre. Doenças têm cura, e quando não têm, podem ser remediadas. Aceitar a condição de doente é aceitar a derrota, como se não houvesse outra opção. Sempre há outra opção.

 


 

O HÁBITO E O VÍCIO

As minhas caminhadas, que podem parecer exageradas, são na verdade apenas um pretexto para aprender, ouvir música e, ao mesmo tempo, cuidar da saúde. É um hábito.

 

O hábito, no cérebro, ocupa o mesmo lugar que o vício. A diferença é que chamamos de vício aquele comportamento que se repete contra a nossa vontade e nos causa prejuízo. É como uma dieta: se você começa cortando tudo o que gosta e restringindo calorias em excesso, provavelmente não haverá adesão.

 

O que fiz foi transformar antigos vícios em hábitos saudáveis. Sob efeito de entorpecentes, eu passava horas consumindo esse tipo de conteúdo, mas embotado, incapaz de agir. Agora, faço isso em movimento, no contrário da paralisia.

 

Não mudei totalmente minha rotina. Apenas eliminei os vícios, transformando-os em hábitos angulares — aqueles que mudam toda uma vida e destino.

 


 

O MITO DA CRIATIVIDADE ARTIFICIAL

Há quem diga que os entorpecentes são fonte de criatividade ou produtividade. Otávio Frias Filho Jr. usava maconha declaradamente, assim como outros artistas. Mas eles não são geniais por causa da substância, e sim apesar dela.

 

Sherlock Holmes usava cocaína para lidar com o tédio da banalidade quando seu intelecto não era exigido por um caso complexo. Mas, quando trabalhava, a própria experiência lhe oferecia estímulo suficiente, e ele sequer pensava em drogas.

 


 

O BANQUETE DOS ESTÍMULOS

Em Anora, o crianção magrelo tem tantos estímulos ao mesmo tempo — heroína aplicada na veia por enfermeiras, carros, viagens, videogames, mulheres, sexo, cocaína, álcool, festas — que não precisa ser viciado em nada. O dinheiro compra a ausência do tédio. O único vício dele é ser um idiota.

 

O viciado não consegue lidar com a banalidade do mundo. Ou, às vezes, não encontra outra fonte melhor de dopamina e prazer que não seja através das drogas.

 

Freud, assim como Otávio, não era um professor formidável por estar “ligadão” na cocaína. Ele a experimentava com a intuição de autoconhecimento.

 


 

O PREÇO DE FAUSTO

Muitos ligam cocaína e metanfetamina ao sexo. É compreensível. As mulheres de hoje parecem banais, desinteressantes — tanto em beleza quanto em conteúdo. O álcool faz qualquer uma parecer bonita. A maconha transforma qualquer conversa em algo engraçado.

 

Leminski usava blusa de frio para esconder as picadas no braço. Era genial, mas morreu cedo, barrigudo, sem dentes, com o corpo corroído pelo vício.

 

Vale a pena encurtar a vida em troca do contrato de Mefistófeles, que cobra seu preço em troca de um falso prazer? É como o jogador de futebol veterano: sua mente pensa uma coisa, mas o corpo não responde. Na cabeça, você está em êxtase, imagina mil loucuras, mas o corpo e o órgão sexual já não conseguem executar.


 


 

O ÚNICO ESTADO EXTRAORDINÁRIO

Eu não gosto de estados “extras” da consciência. O único estado extraordinário da consciência é fruto de um corpo saudável, da neuroplasticidade do ensino, da leitura, da cultura.

 

E sempre há a questão da escolha. A aposta no futuro.

 

Se me perguntam se minha rotina é sustentável, devolvo com outra questão: qual é a sabedoria de uma médica que, em plantões intermináveis, destrói seu ciclo circadiano, compromete sua saúde, e nem encontra tempo ou energia para cuidar de si mesma, quanto mais dos outros tão doente ou mais do quem deveria curá-los? Nesse sentido, ela não é muito diferente de uma prostituta que troca seu corpo por dinheiro.

 

Sempre há escolha. Eu posso procurar empregos que se enquadrem no meu estilo e valores: trabalhar seis horas, cuidar da saúde, ou um home office que me permita fazer cardio leve e enquanto trabalho ou nas horas vagas, treinar em casa. A única coisa inaceitável é a desculpa e a preguiça.

 


 

A DERROTA MODERNA

Todo dia, quando caminho, passo por um sorvete de seis reais. Eu poderia tomar um diariamente, afinal treino bastante e é barato. Mas é justamente esse pensamento que gera obesidade: alimentos hiperpalatáveis são baratos.

 

No estádio, pizzas de dez reais oferecem um custo-benefício tentador. É fácil se entregar à derrota da vida moderna. Difícil é fazer concessões e se esforçar.

 

Olhe para Bertozzi, ex-obeso e comentarista da ESPN. Fez bariátrica, emagreceu, mas virou apostador compulsivo. Perdeu mais de dois milhões de reais e foi internado numa clínica de reabilitação.

 

Será que não existe, aí, a troca de um vício por outro?

 

Eu, que não cheguei a causar tamanho prejuízo a mim mesmo, à minha família e à minha saúde, tive a sabedoria de transformar um vício em hábito.

 

ESCRITOR DAVE LE DAVE II (OFICIAL)
Enviado por ESCRITOR DAVE LE DAVE II (OFICIAL) em 02/10/2025
Alterado em 02/10/2025
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