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DAVE LE DAVE
SIM, ELE MESMO
Textos


SOMOS A SOMA DE TODOS COM QUEM CONVIVEMOS

 


 

DAVELEDAVE.RECANTODASLETRAS.COM.BR



O ESPELHO DOS OUTROS

Aprendemos observando as pessoas que nos inspiram, mas principalmente com os erros delas, sobre aquilo que não queremos ser.

 

Nas minhas caminhadas diárias, que podem parecer exageradas — e são, mais de três horas religiosamente — observo muitos transeuntes. Vejo comportamentos que não quero reproduzir, imagens que me servem de contraste e, paradoxalmente, de motivação. O motivo que nos leva à ação é, muitas vezes, não querer ter a mesma vida daquelas pessoas que observo: vidas de sedentarismo, de obesidade, de falta de gosto. Mais do que reflexo de nossos pais, da genética, somos de nosso ambiente.

 


 

O TRANSE PÚBLICO

No transporte público, além de darem mole com o celular à mostra, percebo que muitos desaprenderam a escrever: só mandam áudios no WhatsApp.

 

Desaprenderam também a pensar: rolam o Instagram de forma niilista, como se fosse um entorpecente. É simbólico que o nome usado para quem está na plataforma seja “usuário”, tal qual o “usuário de drogas”.

 

E o próprio Zuckerberg admite que não usa o Instagram — como o traficante que vende, mas não consome o próprio próprio veneno que comercializa.

 

Eu também uso o Instagram, mas para outro fim: ver pessoas que me inspirem e, ao mesmo tempo, reforçar em mim aquilo que não quero seguir.

 


 

PERFIS COMO RETRATOS

É curioso como, apenas observando o ambiente de uma pessoa — seu perfil de Instagram, seus gostos, seu círculo social — já é possível prever com certo grau de assertividade o ambiente em que ela habita.

 

Para ser justo, veja a “minha querida” Double N, que me rechaça. Nosso cérebro é hábil em criar desculpas para fugir da realidade, mas mesmo que ela estivesse comprometida, pela imagem que transmite, seria impossível que eu sentisse ciúmes.

 

Na verdade, o que mais me chateia é quando avaliamos mal alguém ou quando essa pessoa não conseguiu ser aquilo que poderia ter sido, por causa das influências e das escolhas que fez.

 

O que vejo é uma garota bonita, mas que poderia ser mais. Uma jovem confortável demais em um gosto indistinto, longe de sua forma ideal, claramente pelo modo de vida que leva.

 

Se ela é comprometida, seu companheiro certamente não é inspirador o suficiente para que ela seja mais elegante, mais inteligente, mais “fitness”, digamos assim. Pelo contrário: vi uma garota de blusa de frio (mui bela, aliás) calça largas, mas com os inconfundíveis óculos de tartaruga — claro, pois eles ainda dão a cosmética do saber, mesmo que o saber não se viva na prática.

 

O ambiente é ruim, mas ela não tem culpa de ser empurrada para a mediocridade, para baixo.

 


 

A FORÇA DA FICÇÃO - ENTRE ULISSES E PÁRIS

Não são apenas as pessoas que nos influenciam, mas também a ficção, a cultura, a literatura, a arte.

 

Como explica Deleuze, o sujeito tem um encontro com o mundo na entrelinha da sua subjetividade e do autor. Esse encontro é o momento em que nos reconhecemos e dizemos: “então sou eu”. É nesse instante que nossa potência aumenta.

 

É assim que me identifico com filósofos, com personalidades literárias como Hamlet, Hans Castorp, Julien Sorel, Antoine Doinel. Todas essas referências são, de certo modo, pedaços de mim.

 

E a mitologia também — principalmente em Ulisses e Páris.

 


 

ULISSES E PÁRIS: OS ANTI-HERÓIS

É estranho me identificar com personagens tão díspares, que estavam em lados opostos da mesma guerra, por motivos tão diferentes.

 

Ulisses é o herói que não era forte, mas ardiloso. Sabia falar bem. Sabia o seu lugar no mundo e não queria mudá-lo: fingiu plantar pedras para escapar da guerra. Foi o inventor do Cavalo de Troia, o homem cuja astúcia, confundiu. e seduziu até deuses e mortais.

 

E Páris, figura contraditória e extemporânea, que não combina com o espírito de herói do seu tempo. Ele não é corajoso, pelo contrário. Era um nobre que foi criado como plebeu para evitar a guerra que, ironicamente, ele próprio causaria — já previsto por Hécuba.

 

Mais tarde, foi escolhido para decidir entre as deusas mais belas. Escolheu Afrodite e, com o poder concedido pela deusa do amor em troca de sua escolha, conquistou o coração da mais bela das mortais: Helena, esposa do rei de Esparta, dando origem à guerra que perduraria dez anos.

 

Assim, voltou à sua posição original de nobre, apenas por saber avaliar — ou melhor, seduzir — a beleza feminina de uma deusa e de uma mortal. Mas, ao enfrentar na hora derradeira Menelau, cara a cara, fugiu, sendo ajudado por Afrodite e por mulheres que se apaixonaram por ele.

 

Mesmo machucado, na iminência da morte, e mesmo após dez anos do enamoramento de Helena por ele — já enfraquecido pelo tempo e pelo peso da tragédia que ela própria reconhecia ter causado —, quando Helena estava prestes a voltar para seus filhos, marido e pátria, tudo aquilo que havia abandonado pelo belo Páris, ele, ainda covarde e fugitivo da guerra que provocara, conseguiu, com palavras, charme e elegância, dissuadi-la mais uma vez.

 

Saiu da guerra como quem sai de uma festa, convencendo Helena a ter com ele uma noite de prazer culpada e tórrida — como a Madame de Tourvel, virtuosa, que se entregava ao libertino Valmont em Ligações Perigosas, por quem era perdidamente e tragicamente apaixonada.

 


 

ANTI-HERÓIS DO MUNDO REAL

Ulisses e Páris: ambos são heróis às avessas de seu tempo e de seu espírito grego. Ambos são anti-heróis.

 

Assim como eu: uma mistura de Chapolin Colorado, Coringa e Deadpool. Personagens controversos que aprendemos a amar não pela moralidade, mas pela autenticidade.

 

Cada vez que lemos Ilíada, Odisseia, Ovídio, Virgílio, revisitamos essas histórias e nos reconhecemos nelas. Pela familiaridade, eles se tornam parte de quem somos.

ESCRITOR DAVE LE DAVE II (OFICIAL)
Enviado por ESCRITOR DAVE LE DAVE II (OFICIAL) em 02/10/2025
Alterado em 02/10/2025
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