
Nietzsche, ao perceber que seus livros começavam a ter certa repercussão, resolveu escrever Ecce Homo com o intuito de não ser conhecido por aquilo que não era e defender sua filosofia das interpretações inadequadas. Mas parece inútil: a sociedade sempre entende o que quer entender, incluindo as interpretações indevidas, antissemitas e nazistas de suas ideias.
Agora eu, um total anônimo, ter que me defender para ser reconhecido por quem realmente sou, a fim de evitar conclusões precipitadas e de má-fé das minhas inimigas, me parece um pouco demais…
Parece exagero, mas, mesmo assim, com a altivez que me é característica, irei fazê-lo. Agora, que alguém chegue à conclusão de que sou socialista por tudo que mostro na minha página é, no mínimo, uma interpretação, para ser educado: completamente sui generis da realidade — para não dizer, mais precisamente: é uma total idiotice mesmo.
Identifico-me com a tradição liberal-conservadora inglesa, de David Hume, e com o ceticismo de Montaigne, que, para mim, é a única postura intelectual honesta e ponto de partida para tudo, junto com os aforismos socráticos “só sei que nada sei” e “conhece-te a ti mesmo”, de Delfos, que demonstram humildade intelectual. Porém, sou altivo por natureza e materialista convicto, sem nenhum pingo de idealismo ou muleta metafísica, que, para mim, só pode ser fruto de organismos doentios.
Sou apreciador da beleza, esteta, e tento reivindicar para mim a reinterpretação do dandismo para a sociedade contemporânea: viver uma vida de cultura, beleza e arte, mas com atividade física, culto ao corpo e à saúde, que também são formas de beleza.
Sou discípulo de Nelson Rodrigues, que sabia da importância do acaso e da sorte na vida, e dizia que, sem sorte, não se toma nem um Chicabon.
“Conheceram-me logo por quem não era, e eu não desmenti. Perdi-me.
Quando quis tirar a máscara, ela estava colada à cara.
Quando finalmente a tirei e me vi ao espelho, já havia envelhecido.”
Discordo mais uma vez do poeta, porque, por mais que eu desminta, não somos capazes de controlar as interpretações das pessoas, muitas parvas, algumas com baixa capacidade cognitiva e intelectual, analfabetas funcionais até, que nem preveem as consequências das nossas ações. Mas o poema continua belo. E sempre permanece a questão da admiração e da inveja: como eu disse, bom gosto, saúde, forma física, beleza — acima de qualquer unidade monetária — são formas de distinção. E além da inveja, provocam ódio, porque lembram do abismo de quem não as possui, gerando um sentimento de incapacidade.
Numa sociedade cristã que prega igualdade, ora… como pode a natureza ser tão generosa comigo e com alguns, e tão cruel com outros? Parece um dogma de predestinação de Weber: alguns já seriam escolhidos por Deus previamente.
Discordo também do poeta português sobre o uso de máscaras sociais. A vida, como quer Freud em sua teoria psicanalítica edípica, não é representação, não é teatro grego, não é tragédia. É fábrica, usina, desejo, afetos. Nós somos moldados por forças que nos emburrecem e pela sociedade, que impõe limites aos desejos. O desejo mostrado à sociedade passa pelo crivo do que chamamos de “eu”, ou selfie.
Existem máquinas desejantes, corpos, mas não atores sociais que não consideram como o mundo os afeta. O mundo exterior, a moral e a vida boa nada têm a ver entre si.
Por mais que eu acredite em energias, que ações boas promovem coisas positivas, isso é apenas o que gostaria de acreditar. Na realidade, a felicidade não leva em conta se você é honesto, bom cidadão ou pai de família. Tragédias, doenças, traições da mulher amada acontecem a todo momento, mesmo com pessoas boas, assim como a morte de entes queridos.
Ser bom não garante que a pessoa amada o retribua. Muitas vezes, ocorre o contrário: pela banalidade da bondade, busca-se o diferente, o pecado — e foi assim que ele surgiu no mundo, pela boca da mulher.
O que posso fazer é trabalhar diariamente, não necessariamente contra a contingência, mas me esforçando ao máximo, dando a mim mesmo a melhor forma para que a fortuna me atinja o menos possível. E se atingir de forma negativa, que eu esteja preparado, com saúde, estudado, inteligente e culto.
Certamente não é justo que tirem os direitos de um contribuinte do Estado de São Paulo que estavam previstos até agosto do ano seguinte. É injusto, mesmo com uma atuação e rotina exemplar, militar, fazendo melhor uso do dinheiro público do que 99% das pessoas.
Posso tentar me defender, mas ainda assim ser injustiçado, porque a vida não leva em conta certo ou errado — ela é um jogo de poder. Talvez seja um sinal de que, além de ser bom, preciso ter legitimidade, mais poder, influência, mais relações.
Quando aciono um advogado para recuperar dinheiro de compras erradas, não é por desconhecimento da lei ou incapacidade retórica, mas por não ter minha legitimidade reconhecida pela sociedade. Legitimidade é relação de poder. E as relações de poder que moldam a justiça são, inevitavelmente, injustas.
Por mais que goste do filme de John Ford O Homem que Matou o Facínora, não sou um facínora.
Se fosse reconhecido, principalmente pelo estilo, seria como uma pessoa gentil, coerente entre prática e discurso, que não se leva a sério, mesmo escrevendo sobre assuntos sérios e alta cultura. Meu comprometimento maior é com o entretenimento. Quero ser conhecido pelo bom humor e por esse jeito ora meigo, ora combativo, ora inspirado, ora sincero de escrever. E que escreve sobre amor, contrariando o poema, sem ser ridículo, de maneira descontraída e sem ser piegas.
Isso é o que penso ser: e discordando novamente de um poeta tão singular — que penso ser tanto coisa que não pode haver tantos no mundo —, penso que posso, sim, ser aquilo que imagino e trabalhei para alcançar em sua essência.