
Meu intelecto inferior demorou quase três anos para compreender a genialidade desse recantista que, mesmo com a adversidade de trajar elmo, capacete e espada nesse calor infernal do estado atual de aquecimento global do mundo — especialmente no Brasil, que inclusive sua intelectualidade superior deve negar, assim como as vacinas e os crimes perpetrados pelo Bolsonaro — ainda assim brilha com intensidade.
Demorei, mas percebi: trata-se de um Jênio com J maiúsculo, desses de escola antiga, quase da estirpe de Jânio Quadros. Só não o equiparo ao quadrúpede porque seria injustiça — apesar da coincidência de certa inocência igualmente peculiar.
Argônio de Alexandria, cidade talvez fictícia, é mais que intelectual. É também um artista da palavra e humorista nato. Quem o conhece, sabe: vulgarmente chamado de “Seu Gogó”, para os mais íntimos, ele demonstra a rara capacidade de escrever mais de 2.200 textos girando em torno de aproximadamente apenas cinco temas.
Cinco? Talvez três. Talvez menos.
Os assuntos de Seu Gogó variam, mas não tanto: a crítica à esquerda, a defesa das armas e da pena de morte, o negacionismo das vacinas, o apoio à extrema-direita e o repúdio ao “voto impresso”.
Mas sejamos justos: sua Jênialidade reside justamente no detalhe. Porque, se enxugarmos, no fundo são só três tópicos:
• Citação da Bíblia fora de contexto.
• Apoio às armas.
• Crítica à esquerda.
Mais de 2.000 textos exatamente sobre isso. E, mesmo assim, em cada um deles a impressão é de novidade. É a genialidade da repetição: como uma criança que recebe um quebra-cabeça de quatro peças, nunca consegue montar a figura correta, mas, em contrapartida, cria mais de 2.000 combinações distintas com as mesmas quatro peças.
É ou não é um Jênio com J maiúsculo?