
As maiores desigualdades não são físicas, naturais, políticas ou de ordem moral, como queria Rousseau.
A maior desigualdade entre os homens é o bom gosto – ou a falta dele.
O bom gosto não é subjetivo como os outros valores. Ele é a própria subjetividade, já que, segundo Nietzsche, o ser humano é o animal que estima por natureza: sua essência é julgar o que está acima e abaixo de si.
A estética, aquilo que agrada aos sentidos, só viria a aparecer no século XIII como conceito. Mas a ideia de beleza sempre transcendeu a estética.
A beleza é antiga. Está ligada à vaidade, que, se fosse uma deusa, estaria entre as mais velhas do Olimpo.
A Guerra de Troia, que colocou gregos e troianos em combate por dez anos, nasceu da mulher, mas também da vaidade. Eris, irmã gêmea de Afrodite — deusa do amor nascida da espuma do mar unida ao sêmen de Urano —, surgiu do sangue derramado na terra. Diferente da irmã, ela representava não o amor, mas o sentimento visceral da vingança.
Por não ter sido convidada para o casamento de Tétis, deusa da justiça, com um mero mortal, resolveu semear a discórdia. Lançou um pomo de ouro, conhecido como o “pomo da discórdia”, com a inscrição: “para a mais bela do Olimpo”. A vaidade fez disputar o prêmio Afrodite, Hera (esposa de Zeus) e Atena (deusa da sabedoria, da guerra e da estratégia).
Zeus, para não tomar partido, escolheu Paris como juiz. Em troca do poder da sedução prometido por Afrodite, Paris decidiu conquistar Helena, a mulher mais bela da Grécia, esposa de Menelau. Este gesto desencadeou a guerra contra os troianos, vencida apenas graças ao estratagema de Odisseu, ou Ulisses, como preferem os íntimos.
Assim, a vaidade sempre esteve presente — motor oculto de tragédias, guerras e destinos.
O maior dos filósofos, Sócrates, era reconhecido justamente por sua feiúra. Leia em Crepúsculo dos Ídolos: na sociedade ateniense, que valorizava a beleza, sua aparência era tomada como sinal evidente de inferioridade. Talvez seja por isso que Rossellini, em seu filme, o represente desgrenhado, semelhante a um mendigo, sempre descalço – em contraste com os sofistas belos, donos da retórica.
Nietzsche veria na dialética socrática – esse método que em vez de falar apenas questionava – o símbolo da decadência da Grécia após seus tempos áureos do teatro e da comédia. Sócrates, com sua figura grotesca, encarnaria essa transição dionisíaca para a era da racionalidade fria.
O bom gosto se impõe em todas as eras. É uma questão superior, de espírito.
Balzac narra como um prócer, rodeado de móveis de ouro, foi humilhado pela elegância simples de um dândi da época com seus móveis de madeira. Dinheiro não compra bom gosto.
Com todo respeito a Fernando Pessoa, o mais correto seria dizer: “se a alma é pequena, nada vale a pena” – nem mesmo o lucro, nem mesmo o dinheiro, que não compram o bom gosto.
O mais famoso dos dandis, Beau Brummell, inglês célebre por seus nós de gravata inconfundíveis e seu minimalismo rigoroso, triunfou mesmo após a falência em uma das sociedades mais fidalgas de todos os tempos.
Julien Sorel, em O Vermelho e o Negro, vindo da província, adaptou-se à cidade grande graças ao bom gosto e também ao seu capital estético e cultural. Como sabemos, os capitais são permutáveis entre si.
O que é agradável de se olhar, de escutar, de degustar – o que agrada aos sentidos em geral – sempre custou mais, em todas as épocas e sociedades.
Com bom gosto, até o feio pode passar por “bonitinho”.
Na era do espetáculo, da imagem, das aparências, da estética, o gosto se impõe como o mais alto dos capitais, acima de todos os outros.
Ainda mais hoje, com a banalidade da produção em massa, a estética kitsch prolifera tanto na arte quanto na cultura. Como os alimentos ultraprocessados, entrega um produto hiperpalatável, de fácil consumo para quem tem sentidos pouco aguçados.
Mas, para quem possui verdadeiro bom gosto – sofisticado intelectual e esteticamente – a alta cultura sempre terá um grau mais elevado no panteão dos valores.
É ela que denuncia a origem da verdadeira desigualdade entre os homens.