
Vemos toda a verdadeira bondade do cristão fervoroso quando ele chega a morder os lábios de raiva contida – ou será felicidade? – ao falar que, no dia do Juízo Final, os ímpios arderão eternamente no inferno.
Eu, que não acredito nem em pena de morte, acho difícil pensar no tamanho de um crime que mereça, como punição, a danação eterna. Na verdade, a ideia cristã de paraíso também não me parece muito instigante. Como diz Fiódor Karamazov, é para um homem decente até imoral ir para esse paraíso, e viver toda a eternidade – seja como for – para mim já é outra forma de punição.
Aceito minha condição de mortal: é ela que dá o sentido de urgência à vida. Saber que “we only live once”. No máximo aceito a ideia do eterno retorno nietzschiano – viver o momento presente infinitas vezes. Talvez seja por isso que eu gosto de fazer, sinto prazer em praticar as mesmas coisas… e amor fati, aceitar o destino e a realidade porque ela é o que é.
Por exemplo, a gente não é culpado nem por nascer. Gosto mais da ideia de sabedoria do Sábio Sileno: quando perguntado sobre o que era felicidade, ele redarguiu – “Por que me perguntas o que já sabes? A única felicidade nesta vida é nunca termos nascido”.
E, nesta vida, não somos causa nem de nossa própria existência.
Da minha foi meu irmão. Que aos oito anos pediu um irmão para minha mãe. E o presente veio melhor que a encomenda: veio eu.
Meu irmão é aquela criança que, quando mais nova, era expansiva e extrovertida ao ponto de constranger os pais; e, adulto, o contrário. Certamente, eu não poderia ser apenas seu irmão, mas também melhor amigo.
Mesmo assim, devido às circunstâncias da vida – que fogem do nosso controle –, nem sempre eu fui o melhor irmão possível. Embora nunca tenhamos brigado, no máximo discutido assertivamente, discordado. Nos irritamos um com o outro apenas no confronto de videogame, uma tradição que já dura mais de 20 anos… comigo invariavelmente, raras exceções, sempre levando a melhor.
Mas, se houvesse um Juízo Final, você estaria fodido?
Eu posso afirmar que EU, não. Eu saberia me defender de todas as acusações diante de Deus.
Na verdade, a primeira coisa que eu diria para Deus – com todo respeito – é que a própria Bíblia dele está errada e tem várias contradições. Às vezes nem é culpa dele: ele atribuiu lá aos caras da época, e o homem, como sempre, fez cagada. Eu entendo.
Meus erros de vida, e não foram poucos, são totalmente justificados. Às vezes nem dá para dizer que era eu mesmo que estava errando. Dependendo de como o mundo nos afeta, nós somos muitos. Dependendo do estado de energia e das transformações que nosso corpo passa – num estado de gradiente, sinusoidal, que vai de 0 a 10 ou ao infinito–, ora parecemos mais ou menos com o estado aceito pela sociedade, ora mais próximos da nossa singularidade ou do esperado por Deus. Mas certo é que nunca somos únicos.
O “eu”, uma fábula.
A mente, uma simples palavra, conceito.
Sujeito, subjetividades, questão de gramática, linguagem, comunicação, com pouco paralelo com a realidade.
Gosto do filme “Show de Truman”, que me remete ao conceito de Berkeley, solipsista, de que a única realidade é a nossa mente e que a vida é um filme, que todo mundo é ator – igual Truman mesmo.
Nesse sentido, todas as nossas ações são observadas por alguém, em algum lugar, que irá nos julgar em algum momento. Esse é o Juízo Final: o imperativo categórico da consciência.
Acho uma pena, porque tiraria a espontaneidade da vida, a liberdade do ser humano e o direito da culpa – o direito de fazer barbaridades quando ninguém está vendo –, porque sempre haverá alguém vendo.
Diferentemente do conto do Anel de Giges, que narra Platão no livro “A República”: Giges, bom pastor, ficava invisível e com esse poder estuprou, roubou, tomou o poder e atraiu para si tudo.
Então a ética é o contrário do que fez Giges: é o que faríamos – ou deixaríamos de fazer – até mesmo invisíveis.
Mesmo que fosse um grande “Show de Truman”, minha vida poderia ser mostrada (atualmente). Seria inspiradora para alguns, mas enfadonha para muitos. Um monte de momentos repetidos – esse eterno retorno –, um momento de repetição de momentos que eu escolhi repetir, por conta própria, que gostaria de reviver eternamente e que não acabassem.
Talvez a eternidade seja somente isso.
E nada mais.