
DAVELEDAVE.RECANTODASLETRAS.COM.BR
Nem em SP nem em RL parece existir amor, como diz Drummond em Tarde de Maio:
“O próprio amor se desconhece e se maltrata. O próprio amor se esconde, ao jeito dos bichos caçados; não está certo de ser amor, há tanto que lavou a memória das impurezas de barro e folha em que repousava. E resta, perdida no ar, por que melhor se conserve, uma particular tristeza, a imprimir seu selo nas nuvens.”
É certo que eu entrei no recanto por amor. E reza a lenda que por amor outras também o abandonam. Quem me acusa de amar mas flertar com outras não pode me culpar; eu fui como Helena, sob os olhos de Ovídio:
“Durante a ausência de Menelau, Helena, para não ficar mais sozinha à noite, encontrou um tépido asilo nos braços de seu hóspede.
Que grande erro foi o seu, Menelau! Você partiu sozinho, deixando sob o mesmo teto seu hóspede e sua esposa. A um abutre, você confia, insensato, tímidas pombas; ao lobo das montanhas, você confia um curral de ovelhas bem-tratadas.
Não, Helena não é culpada, seu amante não é criminoso. Ele fez o mesmo que você ou o que qualquer um teria feito. Você os forçou ao adultério, ao fornecer-lhes o tempo e o lugar. Que outro conselho além do seu seguiu sua jovem mulher?
Que podia fazer? Seu marido não está lá, mas há um hóspede que não é rude, e ela teme repousar sozinha num leito que você abandonou. Que o filho de Atreu pense o que quiser: eu absolvo Helena; ela aproveitou a condescendência de um marido benevolente.”
Na ausência dela, eu só pude viver minha vida. Mas fato é que, no recanto, as garotas com quem interagia fizeram muito mais e demonstraram muito mais interesse do que ela. E, por falta dela, eu interagia com as outras.
Eu escrevi textos e mais textos, toda uma página, e ela nunca comentou; pelo contrário, me rejeitou peremptoriamente, a não ser enviesadamente pelo perfil anônimo. Mas estranho o orgulho e a paixão das mulheres: existe essa página por mim, mas eu mesmo sou bloqueado nela. O que é uma pena. O último comentário que deixei foi:
“Olha! Quem voltou, como a ave Fênix que retorna de Hades, ou Perséfone, trazendo a primavera, minha estação do ano predileta. Ou então, Sísifo, que tentou enganar a morte muito antes do filme O Selo de Bergman. Seja bem-vinda de volta… desconhecida.”
Eu não tenho ciúmes do passado dela, nem inveja de outros homens, nem ciúmes de qualquer outra mulher, porque eu conheço a mim mesmo: eu brilho pelo contraste da banalidade.
Se ela fala do passado, que beijou outros, isso me causa mais pena e repulsa. Porque me conhecer é igual a ter um iPhone 17 Plus Max Ultra OLED Premium, ser roubado e ter que se contentar com o modelo antigo que ainda tinha botão e não recebe mais atualizações. Assim são os pretendentes e os homens com quem concorro no mercado afetivo.
Veja minha ex-amiga Claricinha Lispector Maria: é difícil separar talento de beleza. A beleza eterniza na minha memória uma pessoa, igual ao bálsamo das múmias; por mais que ela tente escondê-la ou apagar sua foto, a imagem dela está bem guardada nos meus engramas, que são as memórias, e pode ser… até que esteja no celular também, como lembrança, souvenir de quem conheceu um lugar belo, e guardo um pedacinho comigo para carregar onde quer que vá.
E eu peço para o ChatGPT criar ilustrações bonitas para que fiquem parecidas com ela, mas nem a inteligência artificial chega perto de arranhar a beleza real dela… e eu acho até que um dia que o ChatGPT caiu foi justamente no dia em que pedi uma ilustração baseada nela.
Quando a gente se conheceu, eu não estava na minha melhor forma… hoje, juntos, a gente pararia o shopping, a praça, de tanta atenção que chamaríamos… apesar de eu ser mais definido e elegante, claro.
E o bom de parecer mais jovem, mesmo sendo mais velho, é que às vezes passo pela casa dos 20, o que me permite relacionar com garotas mais jovens com naturalidade… prova disso são os olhares até de colegas que recebo no dia a dia, na academia e no meu Instagram de garotas que nem são maiores de idade. Eu uso roupas de quando tinha 21 anos, e elas ficam muito melhor em mim hoje do que na época.
Felizmente, hoje me permito a veleidade de não sair com mulheres que não estou a fim, que não sabem escrever, desinteressantes. Se eu tivesse dinheiro seria ainda melhor, porque poderia viajar para encontrar mulheres que realmente valem a pena ou convidá-las para me visitar, igual como o Seu Barriga convida Chaves para Acapulco… mas aqui é um convite ao prazer, um convite à felicidade, igual à música dos Amigos.
Mas, apesar de tudo, acho que nenhuma dessas garotas ou mulheres que mostraram interesse em mim no recanto gosta realmente de mim: elas podem me achar “cool”, às vezes até de bom gosto, atraente, mas duvido que gostem de mim de verdade.
Agora, a Double N… eu sinto que o que ela sente é verdadeiro mesmo à distância.
As outras são como, uma vez, eu brinquei, se mais alguma mulher além das já conhecidas (e houve modéstia à parte) também estava apaixonada por mim, e uma, com a eloquência e síntese de uma advogada e jurista em formação, sentenciou:
“Eu amo o que tu escreves…”
E é isso: elas amam o humilde escriba, Dave le Dave. Mas se houver uma promoção de ficar com o Dave, mais ter que levar o David junto, elas me deixam de lado…