
Vocês conhecem Oito e Meio, de Fellini? Aquele em que Marcello interpela um diretor de cinema com bloqueio criativo? Inspirado na biografia do próprio diretor, que até então havia feito oito filmes, ele se hospeda em uma estação de águas: o resultado é a obra de arte de Fellini, não do personagem interpretado por Mastroianni.
A gente poderia usar a desculpa de que você publica pouco por critério, por falta de tempo, não é mesmo? Afinal, as palavras hoje estão relegadas ao rés-do-chão da sociedade contemporânea… Se não fossem as contas e encomendas, o carteiro já teria perdido o emprego, pois não se escrevem mais cartas.
Mas a verdade pode ser mais simples e crua: talvez você não escreva simplesmente porque não há nada que dizer. Nada interessante a falar.
A criatividade que envolve a escrita não é dom, não é magia, não existe inspiração como fruto de um daimon, como acreditava Sócrates: é fruto apenas de trabalho. Como diz Bakhtin, o gênio é simplesmente aquele que consegue organizar de forma original um conteúdo que já está disponível em seu universo polifônico e semiótico de ideias. Mas se esse universo é raso, é o planeta do Pequeno Príncipe, não há muito o que dizer.
É igual à construção de uma casa. Há os pedreiros, mas há casas feitas por arquitetos. Os escritores são arquitetos da escrita, mas sem matéria-prima não se constrói casa; sem linguagem e pensamento, que são a matéria-prima da escrita, não se escreve um texto.
E há o bom material e o material de segunda mão. O material é a experiência de vida do escritor, seu olhar para a estética e a beleza da palavra, e a forma como escolhe organizá-las e delas extrair um sentido. Mas sem conteúdo, não há texto. E conteúdo se constrói com repertório cultural, através de leituras, aprendizado de matérias como artes, antropologia, ciências sociais, filosofia e até exatas; cinema; hobbies… Tudo isso é material para a escrita. Sem isso, não há pensamento, não há ideias, não há criatividade.
Não dá para pensar em um escritor antes que ele seja um grande leitor. Ou em um diretor de cinema que não seja um cinéfilo. Não é como o jogador de futebol que pratica o esporte, mas não gosta do jogo e não entende de futebol. O escritor não pode enganar: ele trabalha diretamente com pensamento e linguagem, que alimenta a alma que, na verdade, é o corpo do aprendizado — a leitura, o repertório cultural.
Sem leitura, você pode ficar em uma estação de água até ficar tão murchado e hiper-hidratado que vai parecer um maracujá enrugado, e ainda assim não conseguirá escrever nada.
Porém, vocês podem fazer como alguns recantistas que, mesmo sem ter nada a dizer, escrevem.
O resultado é que, através desses usuários, eu começo a entender os pré-socráticos, que achavam que o intestino era responsável pelo pensamento — porque, no caso deles, talvez fosse mesmo.