
Se, segundo Einstein, um dos conceitos de loucura é fazer as mesmas coisas esperando resultados diferentes, estão parafraseando o Assis sobre um personagem do próprio Assis, Quincas Borba, que dizia que Pangloss não era tão tolo como Voltaire o pintava.
Referindo-se, claro, a Cândido e ao otimismo em sua crítica a Leibniz, segundo o qual tudo que vem da natureza seria bom, pois fruto da vontade divina… Mas a realidade, como o terremoto de Lisboa, contrapõe essa crença a todo momento.
Então Bacamarte, de O Alienista, também não é tão tolo como Machado o pintou, porque, de fato, toda a sociedade é louca.
O que se vê são pessoas repetindo comportamentos, umas às outras, e, sobretudo, repetindo a si mesmas.
Veja o tal “escritor da armadura” do Recanto: critica sempre as mesmas coisas, mas a dialética do que critica produz justamente aquilo que denuncia — a própria ignorância, a alienação, a intransigência, a visão estreita que não consegue enxergar outro ponto de vista além do seu próprio.
Ora, se eu nego a feiticeira mas afirmo Deus; se critico a pobreza dos países de matriz africana e, ao mesmo tempo, exalto os escandinavos, então nego que os fatores que produzem a riqueza nórdica sejam estritamente materiais: estudo, ensino, educação, infraestrutura, cidadania; não espirituais.
E insisto que é “fé” ou “ideologia” que gera a pobreza de uma Venezuela, de Cuba…
Mas carregar o elmo e e espada já são demais para certas cabeças. Pensar se torna um fardo excessivo trajando tal indumentária.
A sociedade, e o comportamento das pessoas, se repetem. É possível prever seus compromissos apenas observando o campo social em que estão inseridas: seus amigos, o universo semiótico e polifônico de ideias de que fazem parte.
Disso se traduz todo um destino — basta bater o olho. A mesma história de sempre: engravidar do primeiro que aparece, viver para criar o rebento e ficar presa em relacionamentos previsíveis.
Por isso faço o elogio, mas também a crítica, daquela bela recantista que apelidei de Clarice do século XXI.
Tivemos um contratempo, causado por uma simples iguaria oleaginosa — uma fonte vegetal de gordura boa, que faz bem à saúde.
Apesar de ser muito bonita e inteligente, permanecia solteira e não tinha redes sociais.
Uma garota assim, se estivesse no Instagram ou em sites de relacionamento, teria incontáveis pretendentes. Mas — e aqui está a questão — qual seria o nível desses pretendentes? Nenhum à altura dela. Nesse caso, faz bem em permanecer sozinha.
Ela é tão bela e inteligente que, se criasse um canal no YouTube, apenas pela beleza, mesmo sem carisma, talvez já conquistasse milhares de inscritos. E seria justo.
Mas preferiu o anonimato.
Muito diferente daquela outra (amiga?), que chama de gênio o primeiro que “recita” uma lei de cor… Não um poema, não um trecho de Shakespeare, mas sim um artigo do Código Penal, ou quem sabe do Código do Consumidor. Talvez o partido perfeito para ela fosse Celso Russomanno, sei lá…
Minha crítica, porém, é mais profunda: abrir mão de escrever, apagar sua conta.
Não se faz isso, em hipótese alguma. Por ninguém. Nem por amor, nem por ódio. Porque apagar seus escritos é apagar a si mesma, suas memórias.
Esse é um comportamento de loucura. Ela repete o mesmo padrão de tantas outras mulheres que conheci.
Um déjà-vu. Um eterno retorno do mesmo — Nietzsche que o diga.
Mesmo que fosse por minha causa — por nosso entrevero, por eu ter produzido um ambiente “tóxico”, como algumas inimigas gostam de pintar — ainda assim não valeria a pena apagar sua conta.
O paradoxo da intolerância de Popper é claro: os intolerantes ocupam os espaços que os tolerantes abandonam. Por isso não podemos ser tolerantes com a intolerância, se queremos que a tolerância prospere.
Nisso, ela é meio louca. Mas quem não é?
“Louca, eles dizem”… como ela mesma escreveu em um texto.
A criatividade flerta sempre com a loucura. O esquizofrênico e o criativo padecem da mesma patologia — mas o criativo é produtivo, consegue se controlar. Ambos, no entanto, compartilham uma imaginação ímpar.
Foucault tem um termo muito belo para falar da ciência que se ocupou da mente, dos transtornos psicológicos e psiquiátricos que emergiram a partir do século XVIII: os médicos da alma.
Quem não precisa de médicos da alma hoje em dia?
E qual a melhor forma de cultivar essa alma-jardim, senão regando-a com escrita, com material para o pensamento — que é cultura?
Bons livros, bons filmes, boas companhias. Mas, sobretudo, escrever sobre tudo isso.
Garota, menina: você está ficando louca de apagar sua conta, sua maluca?