
Cogito, ergo sum. Penso, logo existo.
Se o pensamento é constituído de linguagem, e para escrever usamos a linguagem, por silogismos chegamos à conclusão inevitável: quem não escreve, não existe.
Para a pessoa existir, é necessário esse movimento de reflexão — da existência que se volta sobre si mesma.
A que faz cagada e reflete sobre a cagada feita. Veja: quando o homem diz que brochou, são dois — o que brochou de fato e o que acusa.
Mas o de pau duro mesmo é sempre inapreensível pela razão. Ele existe apenas na teoria, no mundo das ideias, na reflexão, na escrita.
Quem não escreve é sempre brocha. Nunca existe.
E para brochar é sempre necessário o outro, a tentativa, a alteridade. Quem não transa, quem não tenta, nunca brochou de fato. E quem não pensa, quem não tem conteúdo, não é capaz de escrever.
Por isso é totalmente esdrúxula a tese de uma amiga que exaltava a suposta distinção de um de seus pretendentes que nunca publicou nada, que não escreve.
Ora, até sua própria existência é algo inapreensível. No máximo, ele é como o personagem Pacheco, de Eça de Queiroz: sombra literária, espectro social.
E essa também minha amiga — que dizia ter um pseudônimo artístico, mas que escreve tão raramente quanto a aparição do cometa Halley.
Como se sua escrita, para acontecer, tivesse que ser produzida por Spielberg antes.
Sinceramente, não compreendo esse tipo de genialidade e verve artística que ocorre tão raramente que, em anos de recanto, escreve tão pouco.
Talvez eu banalize demais o conteúdo e escreva o que vem à cabeça sem grandes preocupações com qualidade.
Talvez.
Mas pelo menos posso afirmar com convicção: escrevo, logo existo.
Escrevo, logo ex-isto.
Escrevo, logo sou isto.