
No tocante – para usar a palavra predileta do marginal Bolsonaro – ao futebol, como em tudo, eu sou muito coerente: torço para o time da minha região. Moro perto da estação Rubi, cuja última estação é PALMEIRAS Barra Funda. Do outro lado da cidade fica o Itaquerão, Corinthians Itaquera.
Pompeia, Perdizes… para quem não conhece São Paulo, são bairros totalmente palmeirenses, sede das torcidas organizadas. Se você não é palmeirense e anda por ali, se sente deslocado. O cinema que mais frequentei e o shopping que mais frequentei ficam próximos ao estádio do Palmeiras, o Bourbon, como mostraram as imagens.


Em Itaquera, raramente ponho o pé… é no extremo oposto do local onde resido. Não tenho nada contra o Corinthians, mas esteticamente não me identifico nem um pouco com o time, nem com aquela narrativa que tentam vender através do marketing do “Livro da Democracia Corinthiana”. As cores, tudo me causa uma espécie de ojeriza fisiológica.
É como a foto de uma médica que vi hoje de manhã indo para uma balada sertaneja: algo que vejo e que é totalmente oposto a mim, aos meus valores, à minha fisiologia, ao meu bom gosto, ao que eu gosto – totalmente incompatível. Mundos opostos. É a diferença do caipira e do homem da cidade, do provinciano e do parisiense sofisticado. Mundos diferentes. Sem entrar no que é melhor ou pior, mas sim em universos distintos.
Acho que a gente só não pode se enganar sobre o conhecimento de nós mesmos. Principalmente se lembrarmos do conselho do Oráculo de Delfos, cuja palavra vem de “dolphis”, que significa golfinho. Segundo o livro O Guia do Mochileiro das Galáxias, os golfinhos são os bichos mais inteligentes que há na humanidade e tentaram avisar os humanos sobre o fim da Terra, agradecendo antes: “Até mais, e obrigado por todos os peixes”. Mas os humanos, burros, interpelaram como gestos fofos dos golfinhos e foram dizimados!
Hierarquicamente, depois vêm os ratos, criaturas pandimensionais que, ao contrário do que se acreditava no senso comum, fazem testes conosco de tão inteligentes. Só depois vêm os humanos, segundo Douglas Adams…
A pior coisa que pode acontecer é a gente se olhar no espelho e se ver pior do que naquele episódio do Chaves, em que Seu Madruga se olha e vê uma caveira. Mas, ao invés da caveira, observamos o reflexo do fantasma dos nossos próprios pais: o legado miserável de nossos ascendentes que deixaremos para a descendência.
Nesse sentido, Brás Cubas foi feliz. Repetir os mesmos erros deles, não sem autenticidade, mas sem originalidade, sem singularidade, sem levar em conta nossos próprios desejos, nossa própria individualidade e potência, é um destino que se deve evitar.
No contexto de times, é difícil separar o time dos pais e do filho. Dizem que o pai falhou como homem quando o filho torce para um time distinto do dele. Mas eu não me vejo torcendo para outro time além do Palmeiras. Desde tenra idade me identifico com a camisa do Palmeiras. Sempre fui palmeirense e hetero, sem dúvidas.
Esteticamente, sempre senti ojeriza pelo Corinthians, mas sempre respeitei. O principal rival do Palmeiras será sempre o Corinthians, maior clássico do Brasil. Mas o time que mais odeio é o São Paulo: o rico falido mas que mantém o nariz em pé, sem perceber sua decadência. Nos últimos 10 anos, apanhou do Palmeiras de todas as maneiras possíveis – goleadas, gols do meio de campo – e mesmo assim se consideram confiantes diante de nós.
Além disso, não podemos esquecer o hediondo fato histórico de que tentaram roubar o Palestra Itália da gente. Mas, se fossem chutar, diria que pareço mais são-paulino do que corinthiano. Isso porque sou muito paulistano, mas antes sou hetero e tenho testosterona suficiente para não ser são-paulino. Apesar de o Palmeiras hoje ser um clube ecumênico, adoro italianos, Fellini, Sergio Leone, Scorsese, Coppola, Tarantino, Scolari, comida italiana… ora, que time seria mais apropriado para eu torcer senão o Palestra Itália?