
O dilema da esfinge da modernidade: é preciso fazer o que se gosta ou simplesmente gostar do que se faz?
A vida real é tédio. É um pêndulo entre pagar boletos e trabalhar para conseguir pagá-los. Há poucos agraciados no mundo que conseguem quitá-los fazendo o que amam. Poucos transformam paixões em profissão.
Gosto do exemplo de Antony Curti, que nasceu em São Paulo, na década de 90, assim como eu.
É preciso respeitar os bebês noventistas. A gente sobreviveu sendo criança nos anos 90: nos programas dominicais, no Gugu, na Xuxa, na Angélica, na Eliana disputando quem era a mais desejada em nossa “homenagem”. Ao Barros falando mal no Gugu. Ao 11 de setembro acontecendo em plena transformação do Goku em Super Sayajin.
Nós pegamos a transição do mundo analógico para o digital: ficha, ioiô, pipa, mas também bichinho virtual, Game Boy, PlayStation, internet, Bate-Papo UOL, Orkut. Falar dos anos 90, da geração que cresceu nessa época, sem falar desse contexto, é impossível. A década criou seres totalmente adaptados.
Curti é paulistano, assim como eu. Mesmo sem nunca ter pisado nos EUA, virou fã de futebol americano. Teve um site no começo dos anos 2010 para falar sobre o jogo, comentando táticas, estudou sozinho.
Hoje, seu canal é o conteúdo em português sobre futebol americano mais visto no Brasil. Produz documentários, aulas sobre táticas, explica o funcionamento da liga e ganha a vida com isso.
Tem tatuagem do seu time — o Chicago Bears, tão ruim atualmente quanto o São Paulo, seu time no futebol. E hoje ele trabalha na maior emissora do país comentando o jogo que mais gosta.
Ele é um especialista, com pretensão até de comentar Fórmula 1 — ele que nunca foi piloto, apenas autodidata.
É assim que me relaciono com as coisas que gosto: aprendi sozinho filosofia, cinema, futebol, pelas ferramentas que encurtam o mundo. A internet aboliu limites para o conhecimento, exceto o da nossa própria vontade.
Não somos levianos com nossas paixões: de entusiastas, tornamo-nos especialistas mais sérios que muitos que estudaram a vida inteira. Nosso combustível não é outro senão o mais poderoso: a própria paixão.
Quando vejo a garotinha nordestina de aproximadamente nove anos indo a todo jogo no estádio, ao lado do pai, sabendo de cor o nome dos jogadores, eu não me surpreendo.
A primeira vez que fui ao estádio foi em 1998. Se já houvesse os recursos atuais — Allianz Parque, sócio Avanti — eu seria essa garotinha. Eu me vejo nela.
E também contemplo a beleza dos mais velhos, como ela me observa hoje, como eu quero estar no futuro.
Não confundir com desejo. Freud falava em um período de latência, quando a criança canaliza sua libido para o aprendizado.
A primeira mulher que achei bonita no sexo feminino foi minha professora da primeira série, que influenciou meu padrão de beleza até hoje. Ela lia para a gente Monteiro Lobato.
Quem vai saber se meu gosto pela leitura não tem a ver com a beleza que eu via nela? No rosto e no comportamento? Essa paixão platônica que nutro até hoje. Esse Eros — amor pelo conhecimento — que é sempre uma busca, sempre inalcançável, sempre inacessível.
Quem sabe a garotinha não seja a próxima comentarista da Globo?
Quem sabe onde o combustível das nossas paixões pode nos levar?
O que é certo é que a paixão não conhece limites.