
Desde a época de Nogueira, Nelson Rodrigues, que teria dito que a maior forma de solidão é a companhia de um paulista, existe essa percepção de contraste.
Há uma visão de que, em São Paulo, vive-se para trabalhar, enquanto o Rio seria mais lúdico, mais solto, quase hedonista.
Certa vez citei essa frase de Nelson a um amigo carioca. Ele ficou completamente desconcertado. Que discordava totalmente.
E eu mesmo adoro o Rio: afinal, foram eles que cunharam a deliciosa expressão “tá de chereka?”. Como não amar?
Mas esteticamente, eu não me identifico com praias e calor.
Eu gosto de prédios, de paisagem morta e cinza de São Paulo, que fisiologicamente combina melhor comigo.
Sim, é divertido observar banhistas de fio dental. Mas o excesso de exposição dessensibiliza o desejo. A sensualidade vira quase pornografia, vulgaridade.
O Rio me parece mais vulgar que São Paulo.
Enquanto São Paulo se sustenta em arte, museus, gastronomia — o Rio: putaria.
O Lollapalooza, originalmente de Chicago, cidade mais parecida com São Paulo, continua sediado aqui.
Mas o bairrismo ressurgiu com a ida da NFL para o Rio de Janeiro. Nos próximos cinco anos, receberão pelo menos três jogos. Antes era em São Paulo, no Itaquerão, que lotava sempre. Agora é no Maracanã — cartão-postal do país.
Mesmo assim, os ingressos em São Paulo se esgotaram rapidamente. Foi um sucesso estrondoso.
Costuma-se dizer que o Rio é o túmulo do futebol. Talvez será também o túmulo do futebol americano.
É claro que nativos cariocas que gostam de futebol americano não têm capacidade de encher os estádios sozinhos.
O Maracanã só vai lotar porque pessoas de São Paulo viajarão, turistas de todo o país irão — como nas invasões corinthianas.
Muita gente que nem gosta de futebol americano vai apenas para tirar selfies, posar em um evento.
Penso numa médica dermatologista que saiu da roça, mora no Rio, tornou-se aspinista social. Ela aparece em jogos do Brasil só para registrar no Instagram. Mesmo sem saber diferenciar uma bola de futebol da de americano, irá ao evento pelo glamour.
Enquanto isso, eu, verdadeiro fã do futebol americano, me vejo cada vez mais distante. Se um dia eu for, os ingressos estarão cada vez mais caros — para que os cariocas curtam, embalados pela emissora carioca que detém os direitos: a Rede Globo.